Arquivo da tag: Maputo

Um país sequestrado

Marcio Pessôa, de Maputo.

Moçambique viveu uma semana de comoção com a morte do menino Ahmad Abudul Rachid, de 13 anos, durante um sequestro na cidade da Beira, a segunda maior do país. Após uma negociação confusa e um familiar ter informado à Polícia onde o resgate seria pago, o menino foi executado.

Algumas informações desencontradas indicam que um primeiro resgate foi pago para as pessoas erradas, o que teria deixado a situação ainda mais tensa. Desde o final de 2011, o número de sequestros no país chega a 40. O caso Ahmad Rachid foge do perfil dos sequestros em Moçambique pela morte do refém.

O rapto também ficou marcado não somente pelo amadorismo da quadrilha, mas também pela sonolência dos órgãos de segurança pública, que simplesmente não conseguem travar a sanha dos grupos criminosos – muitos dos quais auxiliados ou liderados por policiais.

O foco da política de segurança pública do país parece estar muito mais voltado a reprimir pontos de dissidência política ou de manifestações de contestação ao governo do que oferecer um serviço de qualidade para seus cidadãos.

A morte de Ahmad também marcou o cansaço do moçambicano em geral, condenado à rotina do medo. Os familiares de médios empresários não andam com tranquilidade nas ruas e o resto da população, que vê esse show de horrores na mídia, acaba assimilando o mesmo sentimento.

“Também tenho medo porque vai que estes gajos me confundem com alguém rico”, ironizava um amigo numa conversa informal na Associação dos Músicos, em Maputo.

Reação da sociedade

A onda de sequestros aliada à instabilidade política gerada pelo conflito da ala armada da RENAMO com o governo moçambicano da FRELIMO acaba criando um turbilhão de insegurança que tortura o cidadão comum, deixando um país inteiro refém.

É um imenso cativeiro. O cidadão é condenado ao espaço apertado dos chapas, tem seu choro reprimido e ignorado, sendo alimentado a pão e água diariamente. Na quinta-feira (31/10), milhares de pessoas foram às ruas de Maputo para reagir. Outras manifestações semelhantes ocorreram em capitais de províncias.

O protesto em Maputo foi liderado pela Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, mas teve a participação decisiva de associações religiosas, do Fórum Mulher e de associações de classe. A organização do ato foi tensa porque a administração da capital não queria autorizar a ocupação da área da estátua de Eduardo Mondlane, onde a manifestação pacífia começou.

Mesmo não-autorizada, a marcha parou a capital e se tornou uma demonstração histórica de força da sociedade civil.

Urgência

Nas redes sociais, na imprensa, os apelos pela paz indicam que a iniciativa reverberou e foi contundente. Também ficou claro que governantes e cidadãos não estão sintonizados. Por um lado o poder público se mostra cada vez mais belicista contra as vozes oposicionistas, por outro se faz de surdo aos apelos legítimos da população por paz e segurança. Ou seja, é eficiente quando lhe é politicamente conveniente.

A questão é que esta instabilidade toda afeta os negócios do país. A imprensa noticia que o grupo anglo-australiano Rio Tinto, que explora carvão na mina de Benga, em Tete – vizinho da brasileira Vale – já aconselhou as famílias de seus colaboradores estrangeiros a deixarem Moçambique em função da crise político-militar.

Embaixadas prepraram planos de retirada dos cidadãos estrangeiros em caso de piora no quadro do conflito – o que, no momento, parece pouco provável.

Confrontos tem sido registrados basicamente em Sofala, mas há tensão também em Nampula. No coração de cada moçambicano parece ressurgir as incertezas que marcaram este país durante 16 anos de matança entre irmãos.

Raposa felpuda

Não há dúvidas de que a ala guebuzista da FRELIMO perde no campo econômico com este conflito porque perde dinheiro a curto prazo e abala a certeza de continuidade do investimento estrangeiro, no qual o governo tem baseado a sua estratégia de desenvolvimento econômico – seja isso equivocado ou não.

Mas talvez, por outro lado, colha frutos positivos no campo político a médio prazo porque acaba garantindo sua permanência no poder por mais tempo, uma vez que a oposição política fica armada, cada vez mais inimiga das urnas e abala seu status de partido político.

A RENAMO perde mais do que a FRELIMO com este conflito. Guebuza sabe disto. Por isso o presidente optou por uma solução militar. Sabe que faz um governo contestado, que poderia causar algumas surpresas negativas para a FRELIMO nas próximas eleições.

“Bandidos armados”

Trazer aquela temida imagem dos “bandidos armados da RENAMO” à lembrança do moçambicano nesta hora parece bastante conveniente para o partido no poder reduzir a penetração da maior força de oposição na população.

Parece-me que a RENAMO também calcula mal este retorno ás armas porque partido político milita na rua, nos legislativos, nos fóruns comunitários, com as suas bases. Partido político não faz tocaia contra civis. Isto não é ação de partido político, isto é ação de grupo armado. Mesmo que a luta armada seja por justiça social, a RENAMO parece se deslocar no tempo em um momento que parecia munida de reivindicações legítimas. E o mais interessante: nas ruas o povo parecia entendê-las como legítimas.

Tenho notado a preocupação de dirigentes políticos de ambas as partes em dizer que não houve “declaração de guerra no país”. A minha pergunta é: desde quando uma guerra precisa ser necessariamente declarada verbalmente? Não existem as tais guerras não-declaradas?

Acima de tudo, iniciativas bélicas entre dois grupos de interesses opostos marcam o início de uma guerra. As contradições entre discursos e atitudes deixam nítido que existem divisões políticas em ambas as partes, lideranças desafiadas e grupos fora de controle. Ao cidadão moçambicano, resta apenas esperar pelo bom senso – aquela velha atitude racional e nobre que parece ausente nos momentos mais cruciais da história da humanidade.  

Anúncios

Desejo a todos um bom Globo Repórter nesta sexta-feira!

Porque o da semana passada, meus amigos, foi uma fraude. Uma trucagem de TV bem feita. Cinematográfico. Venderam Moçambique para turistas brasileiros em condições de pagar boa hospedagem e passagem e desprezaram a “notícia”, o jornalismo.

Parabéns! Mais uma vez, fizera-me vir ao meu blog para ser crítico da crítica, um papel que eu odeio. Embora eu ainda não acredite que exista conteúdo crítico nessa matéria. Fizeram-me vir para o meu blog usar pontos de exclamação, coisa que eu não faço!

Aos colegas jornalistas, principalmente aos editores do Globo Repórter, uma perguntinha simples: como uma equipe de reportagem consegue ir para o meio da matéria e não enxergá-la? Como ir para o olho do furacão e não sentir o vento? Seria insensibilidade, falta de talento, carência de aptidão, censura ou desinteresse de mostrar ao brasileiro a realidade do Brasil em Moçambique?

Como um time de jornalistas brasileiros muito bem custeados e preparados consegue ter o privilégio de ir para um país que vive seus dias mais críticos de relacionamento com o “Brasil” e sequer toca neste assunto?

A “Marca Brasil”

É claro que me refiro aos intelectuais moçambicanos e à sociedade civil do país quando falo em “momento de relacionamento crítico”. O Brasil sempre esteve associado à alegria para os africanos. Eu fui para Botsuana e vi “bushmen” (aqueles de “Os Deuses devem estar loucos”) com camisetas da seleção brasileira. No meio da savana, eles conheciam o Brasil e estavam felizes por verem um brasileiro – e eu, honrado.

Na África, até poucos anos, você falar que era brasileiro era motivo para se desfrutar de uma boa conversa sobre cultura, futebol, partilhar boa comida e música. Estive na África do Sul, no Zimbábue, na Namíbia, em Moçambique, na Zâmbia, na Guiné-Bissau e no Marrocos. Nestes lugares, dizer-se brasileiro abre portas e corações.

Mas estes dias parecem estar acabando. A coisa mudou um pouquinho nos últimos tempos. Ganhamos em dinheiro e perdemos em simpatia. Aliás, quem ganhou em dinheiro mesmo?

Justamente em Moçambique, para onde os jornalistas globais foram, ativistas e intelectuais, que antes concentravam suas críticas na política externa e nos mega-empreendimentos ocidentais, agora incluem nos seus discursos o Brasil num tom de surpresa e decepção. Vi isso no Zimbábue quando apelavam para que os negócios com diamantes beneficiassem o povo e mostravam medo dos interesses chineses e brasileiros no país.

Cidadãos moçambicanos bem informados, acadêmicos, técnicos de organizações não-governamentais estão se ocupando dia e noite em discutir o que o governo brasileiro e as empresas brasileiras estão fazendo no seu país em parceria com o “seu” governo. E digo, o que eles têm a dizer deveria ser ouvido por todo o brasileiro. O Globo Repórter poderia ter feito este serviço.

Globo Turismo

Mas o Globo Repórter se travestiu de “Globo Turismo”. A edição do dia 3 de Agosto foi um filme lindo, mas surreal. Levou ao brasileiro imagens do arquipélago de Bazaruto, muito bem recomendado para “casais em lua de mel”, da cidade de Maputo, de Chimoio, da cultura e da gente bonita do país. Explorou o esplendoroso Parque da Gorongosa com sua fauna rica, elefantes, antílopes, leões… Conseguiu chegar a um mirante na Gorongosa, que foi destruído na guerra civil e aí perdeu a notícia.

Aquela mesma guerra civil está em pleno período de Déjà vu ignorado pelo “Globo Turismo”. Talvez por sorte, ou azar, a reportagem não se encontrou com combatentes da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), que, neste momento, estão concentrados justamente na região da Gorongosa, e têm, nos últimos meses, cometido atentados para intimidar o governo.

Civis inocentes têm morrido neste Déjà vu. Embora, sem confirmação, a RENAMO está entre os suspeitos destas mortes.

A RENAMO é originariamente um grupo armado que virou partido e, agora, ameaça voltar às armas para colocar em cheque o eterno governo central Moçambicano da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Tem invadido arsenais e postos de polícia para se armar contra um grupo político que está há décadas no poder e se apropriou do país, dividindo lucros e riquezas com multinacionais.

O Globo Repórter em “parceria com a afiliada paranaense da Rede Globo” se negou a ir a fundo no que vincula o Brasil com Moçambique nos últimos anos: esta imensa riqueza natural que é inacessível à população e é explorada pelo governo moçambicano e gigantes corporações estrangeiras, muitas delas brasileiras.

Cooperação capenga

Como uma equipe de reportagem brasileira, com público-alvo brasileiro, vai para um território cheio de matérias de interesse dos brasileiros e simplesmente ignora a notícia, ignora a história?

Pelo jeito, a maior empresa de comunicação da América do Sul não quer mostrar, mas você pode ver. Vá para o Youtube, busque no Google… Você quer ficar bem informado sobre o Moçambique que interessa para um brasileiro com voto na mão? Procure saber sobre os “investimentos brasileiros” no país e suas várias questões em aberto.

Tente se informar como o governo brasileiro facilita tudo isto. Como o Governo Lula vendeu as empresas brasileiras para a África, usando “os nossos laços étnicos e culturais” como discurso. Aliando-se a corporações gigantes do Brasil e a elites corruptas e cruéis africanas.

Descubra Moçambique da Rede Record, que azucrina a vida dos africanos com a violência policial paulista. A Record que vende a enganação religiosa para um país com 50% de analfabetos. Veja um país que admira a cultura brasileira, mas está prestes a se decepcionar com esta marca alegre e viva, que era a “Marca Brasil”. Uma população africana, com suas próprias mazelas, sendo obrigada a engolir pelos canais abertos o pior do “irmão latino-americano”.

Política externa arrogante

Lance os olhos em um projeto da Vale na região de Moatize, onde está em ampla ascensão a segunda maior mina de carvão mineral do mundo. Um projeto que ainda leva dor a uma comunidade que foi enganada por esta multinacional brasileira.

Gente que tem como tradição enterrar o cordão umbilical dos bebês como símbolo da ligação com a terra e caiu no canto da sereia, abandonando suas casas para “liberar” a área para a empresa. Agora, querem, pelo menos, ter o mínimo do que a gigante brasileira lhes prometeu. E a luta é dura! Nenhum jornalista moçambicano consegue ouvir a Vale. Ela só fala para veículos brasileiros. Nem este privilégio o “Globo Turismo” aproveitou.

Queira saber um pouco mais sobre o Prosavana e suas dúvidas. Um programa de cooperação nebuloso que não se comunica com o seu público-alvo, enchendo 4 milhões de pessoas de dúvidas quanto ao seu futuro. Um programa de cooperação que é mal discutido em Moçambique e de pouquíssimas matérias (todas elas pouco críticas) na imprensa brasileira.

Diante de tudo isto, como jornalista, considero um escândalo o momento que o “Globo Turismo” começa a abordar o programa de cooperação brasileiro na fronteira com o Zimbábue e sequer fala dos outros programas. Moçambique é talvez o principal alvo da política de cooperação brasileira na África. Uma política que tem muitos pontos frágeis e mil questões em aberto.

Dá pra fazer muita matéria interessante sobre Moçambique para o brasileiro com voto na mão. Mas o “Globo Turismo” fez turismo e um programete para consumidores. Então, à uma das emissoras de TV mais poderosas do mundo, uma sugestão: faça uma segunda matéria. Quem sabe faça algo mais jornalístico? Ou, por favor, substituam o nome deste programa de sexta-feira à noite. O que eu vi pelo youtube, nesta semana, não é legítimo para ser chamado de “Repórter”.