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Vão mostrar os dentes

Começa uma semana decisiva para o conflito na Síria. O mediador da ONU e Liga Árabe, Kofi Annan, espera por um cessar-fogo entre terça e quinta-feira (12.04) e, finalmente, a Rússia, que sempre se opôs a uma resolução do Conselho de Segurança contra Bashar al-Assad, anunciou apoio a um documento sem ultimatos e que contribua para o plano de Annan.

Ou seja, todos parecem ter ensaiado alguma satisfação nesta semana, principalmente Assad, que vai continuar no poder por tempo indeterminado. O governo russo também porque ganha uma rara pecha de “bom moço”, abraçando-se na imagem de Annan. E mesmo os Estados Unidos podem se dar por satisfeitos porque vão reduzir as ameaças que vêm desgastando a sua própria posição como potência militar global.

O plano de seis pontos de Annan procura colocar fim aos confrontos entre forças do governo e da oposição, sob supervisão das Nações Unidas, além de estabelecer a libertação dos detidos em protestos e o envio de ajuda humanitária ao país. Eu não quero ser simplista e cogitar que a trégua não aconteceu antes porque o plano não previa os passos do cessar-fogo, algo que nesta semana ficou claro. No dia 10, as tropas do governo baixam as armas e há 48 horas para a oposição fazer o mesmo.

Poderoso, quase mágico, mas limitado

O governo Obama está com as mãos amarradas, não pode ir além de acusações maniqueístas contra o tirano, discursos pró-humanitários e democráticos e tentativas de ampliar sanções econômicas. Uma intervenção militar direta poderia provocar a reação iraniana, dando motivo para retaliações dos aiatolás contra o Estado de Israel e detonando um conflito de proporção global. Ou seja, a maior potência militar do planeta conhece os seus limites.

A vitória de Hillary Clinton foi garantir o financiamento e a militarização da oposição síria através de recursos dos países árabes no chamado “Grupo dos Amigos da Síria”, que pode ser compreendido também como “Clube dos Amigos dos Estados Unidos” porque não conta com atores importanes e interessados na estabilização da Síria como Rússia, China e Irã. Assim, o conflito fica com protagonistas mais regionais, ligados ao mundo islâmico. Isso poupa o governo norte-americano de gritar contra um Assad cada vez mais surdo e despreocupado e patrocinar uma intervenção militar catastrófica.

Neste jogo diplomático, mais uma vez o mundo assiste a uma técnica tradicional. Sem conseguir absolutamente nada na ONU, pela discordância sistemática de Rússia e China, a diplomacia norte-americana reforça uma coalizão internacional paralela, os seus “Amigos”. Outros atores assumem o bastão, a destacar Turquia, Arábia Saudita e Qatar. Estes dois últimos aproveitam uma rara oportunidade porque tem regimes igualmente tirânicos com a oposição. Foram os primeiros a anunciar pesadas transferências de dinheiro para armar o Exército para Libertação da Síria. A manobra de Arábia Saudita e Qatar arrefece ainda mais o efeito dominó da “Primavera Árabe” porque colabora com o Ocidente e, em consequência, reduz a pressão por democratização em seus territórios.

Sorrisos amarelos

É a semana para quase todos sorrirem. Exceto o povo sírio, que vai continuar chorando pelos seus mortos e pela situação do país em crise humanitária sob um regime brutal. Porém, no palácio de Damasco e além das fronteiras da “terra de Assad”, mesmo quem não está acostumado vai ter que mostrar os dentes. É quase obrigação. Mesmo que seja um sorriso amarelo.

Finalmente há motivos para acreditar em um cessar-fogo temporário. Resolução do conflito? Bem, isto é outra história. Assad não vai balançar, provavelmente não cumpra todo o acordo que tem com Annan e o mais realista é pensar que, algumas semanas depois de um eventual cessar-fogo, recomece a contagem de corpos. Tudo isso porque, neste novo cenário, a oposição interna ficou clara, melhor armada, robustecida e, diante da quantidade de mortos, ainda mais ressentida.

Uma entrevista longa de Assad para a ABC norte-americana. Ele fala em reformas, legitimacia e “terrorismo”.

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Dunga, convoca o Amorim

Estava fazendo a minha corridinha que pretende ser diária quando ouvi o especialista alemão em Oriente Médio, Michael Lueder, ser entrevistado pela Deutschland Funk na manhã alemã desta segunda-feira (17.05) e classificar o acordo mediado por Brasil e Turquia como uma “surpreendente ruptura na tendência dos acontecimentos, que ninguém poderia realmente calcular”.

Para Lueder, o acordo pode ser considerado “um sucesso para a diplomacia iraniana e uma enorme valorização para Brasil e Turquia” na cena global. Ele diz que Brasil e Turquia “fortaleceram de forma clara o seu status interno e sua influência na política internacional”.

O acordo determina que o Irã envie 1.200 quilos de seu urânio enriquecido a 3,5% em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% –suficiente para a produção de isótopos médicos em seus reatores e muito abaixo dos 90% necessários para uma bomba. A troca aconteceria na Turquia e seria supervisionada pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e vigilância iraniana e turca. Mesmo sem uma linha sobre uma nova disposição de colaboração do Irã com a AIEA, valorizo o acordo nuclear mediado por Turquia e Brasil principalmente por três aspectos.

Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, driblou o ocidente ao aceitar acordo

Lula Foundation

O primeiro é o fato de líderes da república islâmica mais poderosa do planeta terem sentado à mesa de negociações com líderes do maior país católico do planeta e, incrivelmente, chegado a uma decisão construtiva. Se isso for valorizado, a manobra do governo brasileiro pode reverberar em outras tantas discussões pendentes entre ocidente e governos islâmicos.

Segundo, houve uma quebra de paradigma. Não houve o dedo dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e Alemanha neste acordo. Aliás, todos colocavam o projeto diplomático de Brasil e Turquia no descrédito, até mesmo o premiê turco Tayyp Erdogan, que surgiu ás pressas mais tarde para participar das fotos. A diplomacia brasileira não levou nada além do princípio da soberania e da multilateralidade para a negociação. Ofereceu mais um voto de confiança a um país chamado de “bandido” pela mídia ocidental pela sua completa e justificada falta de credibilidade. Por sua vez, fortalecendo o diálogo, o Irã favorece atores menos desgastados nas discussões sobre segurança internacional.

O terceiro fator é o reforço da minha tese para alguns anos. O Brasil alcançou um respeito tão expressivo na ordem mundial nos últimos oito anos que não é ruim pensar que Lula não abandonará este cenário mesmo depois de deixar a presidência. Como o ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, Lula certamente capitalizará esta “protagonização” do Brasil nas questões globais. O prestígio internacional e as habilidades políticas de Lula lhe dão a prerrogativa de continuar exercendo influência na governança global. Resta saber qual função ele vai escolher. Talvez, criar uma fundação como o próprio Carter ou Kofi Annan.

Era Lula: um dos bons momentos da diplomacia brasileira

Amorim é craque

Mesmo que o Irã invente de não cumprir o acordo – o que é bem possível uma vez que o Irã já criou conflito anteriormente com os inspetores da AIEA – parece-me que esta manobra emblemática termina um dos ciclos mais brilhantes da política externa brasileira desde Zé Maria da Silva Paranhos Júnior – o Barão do Rio Branco. Não vou entrar na análise da herança de Rio Branco, do estilo brasileiro de diplomacia, dos méritos de Osvaldo Aranha, escola francesa, etc. O importante aqui é ver que o espaço foi dado para o Brasil ter voz global e, pelo menos no governo Lula, o país se esforçou para ocupar este espaço, independente de o irmão norte-americano ajudar ou não.

Claro que fica sempre uma dúvida com relação à América Latina, cujo portunhol parece não ser suficiente para facilitar um diálogo claro, maduro e franco. Venezuela, Chile e Argentina revezaram ao longo desta década na disputa com o Brasil por alguma coisa que me esforço muito para identificar, mas até agora não consegui. Assim continuamos desunidos por nada, inclusive tendo prejuízo, haja vista o Plano Colômbia, uma manobra norte-americana que poderia ter sido evitada, uma vez que todos os sul-americanos sofrem com o narcotráfico.

Para mim, esta é a lacuna que a equipe de Celso Amorim não consegue resolver e não há mais tempo para virar o jogo. Ele ganha a Copa do Mundo, mas não ganha a Copa América. Após o acordo com Ahmadinejad, os EUA afirmam duvidar que o Irã cumpra o documento. Mais um ponto para o time de Amorim, uma vez que joga com as regras sem virar a mesa na mão grande, sem o estilo amargo da diplomacia que fracassa peremptoriamente quando o assunto é diálogo com o mundo islâmico.

Protestos contra a visita de Ahmadinejad ao Brasil