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Não dá para esquecer

A minha chegada em Harare foi muito tranquila. Não houve qualquer revista na entrada do país. A única coisa que me deixou bastante chateado foi o fato de, mesmo tendo um visto válido até janeiro de 2011, ter que me apresentar no escritório da migração no próximo dia 15 para retirar uma renovação do visto. Provavelmente terei que pagar mais uma taxa pela renovação, talvez os mesmos 30 dólares que eles cobram para o estrangeiro que chega no país sem visto.

Chegando na área rural de Kwe-kwe para a discussão sobre a constituição do país com a comunidade

Em outras palavras a minha expectativa é terminar esta burocracia de entrada no país com um prejuízo de 50 euros. Antes da viagem, paguei 90 euros à embaixada zimbabueana em Berlim pelo visto de múltiplas entradas no país. Eles não aceitaram me conceder este tipo de visto, ficaram com meu dinheiro e me deram direito a dupla entrada, que custa 70 euros. Poderia ter pago 30 dólares no aeroporto e me sentiria menos roubado.

Harare é uma cidade que vive às escuras. Não há iluminação pública constante. No local que estou morando, na área norte da cidade, os postes existem, mas não funcionam. Semáforos parecem funcionar em regime de racionamento, revezando o abastecimento pelas diferentes áreas ao longo das semanas, assim como o fornecimento de energia elétrica às residências. Uma cidade com 3 milhões de habitantes, com pavimentação apenas na região central. Isto é Harare – que significa em shona (Ele não dorme). Pode não dormir, mas não é por luz em excesso.

Visitando residência com líderes comunitários

Massacre dos anos 1980

Após cinco dias em Kwe-kwe, a 300 km de Harare, participanado do processo de debate da nova constituição do país junto a comunidades rurais, fui um pouco mais adiante em direção à fronteira com Botswana para conhecer Bulawayo, que é a segunda maior cidade do Zimbábue, a 500km ao sul de Harare. É uma cidade de muita história. A etnia ndebele é, digamos assim, “irmã” dos zulus sul-africanos. Atualmente é a segunda etnia que compõe o povo zimbabueano. No final do século XIX, ndebeles invadiram e mataram os shona que viviam na região. Mais tarde, após a independência reconhecida pelo mundo ocidental, em 1980, após a ascenção do atual presidente ao poder, ocorreu o massacre de 40 mil ndebele na região porque as lideranças da área queriam se separar do Zimbábue. Os shona são a grande maioria hoje no Zimbábue.

Bulawayo é uma cidade mais bonita, sem os congestionamentos de Harare, com um povo acolhedor, mas, ainda assim, às escuras. Não tem os prédios altos da região central da capital zimbabueana, mas há prédios coloniais bastante marcantes. Sofre da mesma mazela econômica e a criminalidade na região é assustadora, assim como em Harare. Fiquei dois dias na cidade, pagando 25 dólares por um quarto de hotel sem chuveiro quente após terem me prometido este item de conforto. Tentaram me compensar oferecendo banheiras que pareciam ter sido limpas pela última vez na década de 1970.

Almoço na área rural de Kwe-kwe

Isso não chega a ser um problema porque o banho frio faz parte da minha vida aqui no Zimbábue. No inverno, o zimbabueano toma seu banho gelado, mantendo a boca fechada para não pegar cólera. Quando falta luz pela manhã e à noite, como aconteceu toda esta semana que passou, o banho é de balde. Não me incomoda e, para eles, isso faz parte do cotidiano. Além do mais, nem sempre faz tanto frio como agora, quando a temperatura está entre os 7 e15 graus.

A homenagem da vida

Estou na casa de Mr. Mavhiki e de sua filha Rose. Uma residência bastante simples, mas com pessoas maravilhosas, especiais mesmo. Neste domingo, fizeram uma festa em minha homenagem, que, eu confesso, nunca tive igual. Foram cerca de 20 pessoas da família que se reuniram para celebrar a minha presença com direito a discursos emocionados e tudo.

Sempre lembrando Ruvimbo, os familiares me davam as boas-vindas e se colocavam à disposição para me ajudar, deixando contatos telefônicos e endereços. Mr. Mavihki estava adorando a quantidade de cerveja no freezer. “Marcio, você está feliz?”, ele me perguntava. Quando eu respondia que estava, ele dizia: “se você está feliz, eu também estou feliz!”.

Ao fundo, de boné branco, Mrs. Elizabeth Musonga. Ganhei a camisa que estou vestindo. Este é o início da festa. Mais tarde, chegariam mais convidados amontoados em uma caminhonete. Dançamos ao som de músicas locais das 14h até às 23h. Uh, festerê!

A idéia era fazer uma festa surpresa, mas, devido a minha viagem para Bulawayo, tiveram que me contar sobre o evento para que eu realmente não marcasse nada para domingo. Porém, eles me surpreenderam de qualquer forma pela comida, pelas danças e pela alegria. Eu realmente me apeguei a todos e, com muito respeito, levo mais esta lembrança desta jornada longe do meu país. A energia que recebi e a força de todos ali são coisas que nunca mais vou esquecer e vou levar certamente para o resto dos meus dias.

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O conto (12.07.2010)

Chegando de Bonn após fazer o comentário do jogo final da Copa do Mundo para a Deutsche Welle, às 5h da manhã, depois de mais uma viagem de 3 horas e meia de trem até Osnabrück, cheio de sono, ilumino o meu coração ao abrir a caixa de correspondência e ver uma carta da embaixada zimbabueana em Berlim com meu passaporte e o visto de entrada no Zimbábue com validade até 07 de janeiro de 2011.

No dia seguinte, chegaria de Porto Alegre o meu cartão com registro da minha vacinação contra febre amarela feita em 2003 na ocasião da minha viagem para Caracas em função de um prêmio de jornalismo. O cartão tem validade até 2013.

A semana de viagem para Harare não poderia começar melhor. Havia consultado um médico na semana anterior que me receitou comprimidos contra malária cujo efeitos colaterais eram um pouco menos devastadores para o sistema nervoso central. Seria necessário ingeri-los somente dois dias antes de ir para uma região de alta incidência de malária e adotar a estratégia de usar sistematicamente repelente enquanto estivesse na capital do país.

Cadeira que trabalhei na DW, deixei meu chimarrão na Alemanha.

Claro que a burocracia para uma viagem dessas ocupou todo o meu tempo durante a semana. Não terminei nem mesmo trabalhos acadêmicos que, é verdade, têm prazo para 31 de setembro, mas pretendia concluí-los o mais rápido possível por não saber como é a Internet e por não confiar que seria tão fácil me concentrar em tarefas pendentes do mestrado com tanta coisa nova para absorver.

Conseguir meu visto não foi tão simples como o meu primeiro contato com a embaixada zimbabueana me fez pensar que seria. Primeiro lugar, fui extremamente bem tratado pelo funcionário da embaixada responsável pelos vistos, Mr. Robert Mabulala, o que já é um bocado atípico. O sujeito fez uma festa quando descobriu que eu sou brasileiro e disse que precisaria de um formulário preenchido com informações básicas a meu respeito e com a escolha do tipo de visto que gostaria. Bom, evidentemente omiti que era jornalista com medo de não conseguir o visto por uma bobagem. Afinal de contas, vou fazer uma pesquisa de campo não registros jornalísticas. Robert me disse que, uma vez com o formulário em suas mãos e as taxas pagas, o visto demoraria até sete dias úteis para chegar às minhas mãos.

Muito bem, creio que foram quase quatro semanas para eu receber o visto. Harare não aceitou me dar o tipo de visto que solicitei e paguei (quase 90 euros). Havia pedido um visto de múltiplas entradas durante 3 meses no país porque, apesar da minha situação financeira nada confortável, tinha a esperança de ir para Moçambique visitar colegas jornalistas e “um terceiro território a minha escolha”. Porém, Harare bateu o pé querendo me dar apenas um visto de dupla entrada no país no valor de 60 euros. Ainda pediram para os integrantes da organização que vai me receber, a Crisis in Zimbabwe Coalition (CZC), relatarem oficialmente o que irei fazer no país.

Após uma semana de negociações, acabei ficando com o visto de 60 euros tendo pago por um de 90. Não chorei pelo prejuízo já que sei para onde estou indo e este pode ser o primeiro de vários pequenos problemas a serem enfrentados nesta empreitada.

Esqueça que é jornalista (15.07.2010)

Obert Odhzi é um homem calmo, de fala mansa. Trata-se de um bacharel em direito zimbabueano com pós-graduação em relações internacionais na África do Sul e meu colega no mestrado em Governança Democrática e Sociedade Civil em Onsabrueck, Alemanha. Não existe como tirá-lo do sério, talvez pela sua flagrante assiduidade religiosa. Entre os alertas que Obert me deu a respeito do meu período em sua terra natal estão frases do tipo: “cuidado com o interior do país, é terra de ninguém. Não beba água em qualquer lugar devido à cólera, não coma em qualquer lugar porque os alimentos são geralmente mal acondicionados, não pague nada para ninguém, não dê confiança para desconhecidos porque podem estar coletando informações sobre você e jamais, eu repito, jamais diga que você é um jornalista porque não tem autorização para exercer sua profissão por lá. Esqueça que é jornalista.”

Se eu fosse um pintor de parede em um estágio técnico qualquer, o quadro seria menos ameaçador. Porém, sou um jornalista de ofício com matérias feitas sobre a política zimbabueana sob o ponto de vista da imprensa ocidental. Acentuava-se a incerteza sobre o que poderia acontecer ao chegar à migração com computador, gravador, máquina fotográfica e livros sobre democracia e políticas públicas. Claro, posso ser um estudante indo fazer uma pesquisa de campo acadêmica, mas ainda sou um jornalista. Se tiverem esta informação e me virem entrando com gravador e câmera fotográfica, vou ter que me explicar. Aí, até provar que mula não é cavalo já estarei na prisão ou no próximo vôo de volta à Europa. Claro que prefiro a segunda opção, afinal ser prisioneiro político no Zimbábue deve ser algo bem desconfortável. Mesmo após ser tranquilizado pelo diretor da CZC, McDonald Lewanika, que disse que não iria acontecer nada, fiquei ansioso para ver logo no que está história iria dar.

Deixei Taku em Osnabrueck e Xuxu no portão de embarque para o Timor Leste

A noiva de Obert, Ruvimbo Natalie Mavhiki, estuda Ciências Políticas na Universidade de Bremen. Tive a oportuniadade de conhecê-la em um “churrasco almeão” a céu aberto (o famoso grill) realizado no início do verão europeu de 2010, na ocasião do aniversário de uma colega caraquenha – Esther Maria.

Ruvimbo significa “esperança” em shona, nomes da língua local e da etnia predominante no país. É uma moça de sorriso franco e fascinante. Obert arranjou para que nos conhecêssemos e nesta oportunidade surgiu o convite para que eu ficasse na casa de seu pai, Mr. Clifford Mavhiki, durante o perído que estivesse em Harare. Conversamos e acertamos o preço. Deveria pagar 150 dólares por mês pela estadia. “Se você gosta de cerveja, vai adorar o meu pai”. Bom, interessante referência, mas eu diria que não seria a melhor caracaterística que um abstêmio espera encontrar em um anfitrião.

Sim, por acaso, nunca fui tão abstêmio quanto hoje. Ingressei desde o dia 19 de Maio em um onda saúde total. Separando até uma hora e meia do meu dia para atividades físicas, perdendo, em quase dois meses, 10 Kg. Reduzindo quase que 100% a ingestão de bebida alcoólica, uma atitude considerada corajosa quando se é estrangeiro e se vive na Alemanha, onde a cerveja espetacular e o inverno um tanto depressivo para um latino-americano acabam sendo um convite à fuga da realidade, por mais efêmera que seja. Acredite ou não, estava bebendo apenas vinho em casamento.

Pois bem, chegou a semana da viagem e o último encontro com Obert e Ruvimbo foi bem especial. O casal me indicou lugares para conhecer e recomendaram fortemente as montanhas de Mutare, local também famoso pelas minas de diamante. Deram-me uma série de telefones de amigos de Obert e familiares de Ruvimbo e o de uma advogada chamada Sharon. Para aprender o shona, indicaram-me a Avondale Primary School. Em troca desta imensa generosidade, resolvi levar uma camisa azul da seleção brasileira para Mr. Mavhiki e um conjunto de cremes para a pele comprados na Body Shop para Mrs Elizabeth Musonka, a mãe de Ruvimbo. “Ela é carinhosa e adora mimar a todos, você vai gostar muito dela. Tem um coração gigante”, disse a noiva de Obert, na ocasião do grill.

Eis uma das últimas grandes festas etílicas que fiz com colegas do mestrado. Na foto estão os amigos Lisa e Frederik. Detalhe para a camisa do Werder que troquei pela minha do Grêmio. Não me arrependi, mas deu um aperto no coração.

“But, Ruvimbo, you know, what should I do to help Mr. Mavhiki at home? For example, I will have a bed from him and should I buy something to eat by myself or we’ll eat the same food together. What do I need to do?”
“You don´t need to take care about that. He’s a nice guy that likes to talk and drink a lot”.
“But, you know, I don’t want to disturb. So, which would be my rights there”?
“Don’t worry, Marcio. You don’t even have to pay”.

No dia da viagem liguei para Mr. Mavhiki. Ele foi bastante receptivo. Perguntou-me quando chegava, quis saber a respeito do meu vôo porque gostaria de me receber já no aerporto com uma placa com meu nome. “Marcio, do you like beer?” Eu não pensei duas vezes para responder. “Ofcourse, I do! By the way, I’m very curious about the Zimbabwean beer is”. “That’s very good!!!”, respondeu Mavhiki aos soluços de um sorriso rasgado.

Um terço do conteúdo da minha mala eram presentes de Ruvimbo para a família. Tirei muita coisa do que iria levar. Coisas que não iriam me dar prejuízo algum se ficassem de fora da empreitada. Tudo isso para satisfazer o desejo de Ruvimbo e retribuir o imenso favor de me oferecer a sua rede de relacionamentos para que eu não fique sozinho em seu país.