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“Se você quiser mudar estruturalmente uma sociedade, você terá de quebrá-la”, diz operador que roubou dados de milhões de pessoas no Facebook

Em meio à produção midiática global sobre a reeleição de Vladimir Putin na Rússia e à comoção brasileira com o chocante assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, o New York Times e o The Guardian publicaram uma entrevista que não pode ser ignorada nestes tempos de extrema e nociva polarização política.

Trata-se da história do cientista de dados Christopher Wylie, um dos principais responsáveis pela coleta ilegal de informações privadas de mais de 50 milhões de pessoas através do Facebook com o objetivo de influenciar as eleições de 2016 nos Estados Unidos. A operação de três meses foi montada pela empresa Cambridge Analytica através de um aplicativo projetado pela equipe do Dr. Aleksandr Kogan, do Departamento de Psicologia da Universidade de Cambridge.

O app consegue capturar dados das pessoas que o acessam e da rede de relacionamentos delas no Facebook sem que se deem conta disso. “A ideia era combinar microtargeting com construções psicológicas. O alvo não seria você como eleitor, mas você como personalidade. Para isso se precisava coletar massivamente dados das pessoas. Assim se construiria um perfil psicológico sobre cada eleitor nos Estados Unidos”, revelou Wylie em uma entrevista publicada em vídeo pelo The Guardian.

O plano tinha o objetivo de criar uma ferramenta que influenciasse uma mudança cultural na sociedade americana e, segundo Wylie, teve a participação de Steve Bannon, editor da rede de notícias de direita Breitbart. Bannon conquistou a simpatia do mecenas republicano Robert Mercer, um multibilionário gestor de fundos de investimento e cientista da computação, doador nas campanhas de Donald Trump à Presidência dos EUA e de Nigel Farage para o Brexit. Segundo Wylie, Mercer aceitou investir 15 milhões de dólares no que seria a “arma cultural” de Bannon.

A Cambridge Analytica também trabalhou na campanha para o Brexit. A empresa montou uma estrutura que contava com cientistas de dados, psicólogos, criadores publicitários, designers, videomakers e fotógrafos. A equipe produziu conteúdo levando em consideração que tipo de mensagem fazia a pessoa suscetível, o enquadramento, o tópico, o conteúdo e o tom que esse conteúdo seria transmitido.

“Levávamos em conta quantas vezes teríamos que tocar você com a mensagem para fazer você mudar o que pensa sobre algo”, esclarece. A equipe criava a peça que era introduzida na Web por um time de especialistas em público-alvo. “Websites, blogs… o que imaginássemos que um determinado perfil de pessoa seria mais receptivo seria criado na internet para ser encontrado por ela. Assim que a pessoa clicasse nisso, ela seguiria um caminho de conteúdos semelhantes por si só até mudar de opinião.”

Cambridge Analytica no Brasil

No último final de semana, a Fundação Getúlio Vargas divulgou através do Jornal O Globo um levantamento sobre tuítes relacionados ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, revelando que o debate foi distorcido pela presença de 1.833 robôs de quarta a sexta-feira (16/03), 5% do total da discussão. É claro que a publicação desses dados no contexto polarizado brasileiro acabou fazendo com que cada polo empurrasse a responsabilidade da ação dos robôs para o adversário, mas quem está por trás deste tipo de iniciativa ainda está oculto para os usuários da rede. O certo é que se trata de um método de influência e, como tal, não pertence a uma corrente política específica. Robôs ou meios mais sofisticados podem ser usados para qualquer linha ideológica.

A Cambridge Analytica atua no Brasil há um ano através de parceria com a empresa Ponte Estratégia. A Folha de São Paulo divulgou no final de semana que a parceria deverá ser desfeita depois do escândalo na Europa e nos Estados Unidos.

O caso divulgado por Wylie evidencia que pelo menos um grupo de técnicos de psicologia, publicidade e tecnologia da informação está convencido de que é possível fazer as pessoas mudarem de opinião política sem um debate público construtivo nem compartilhamento de experiências coletivas. “Corremos o risco de fragmentar a sociedade de modo que as pessoas não compartilhem mais experiências nem entendimentos. Se não tivermos mais entendimentos compartilhados, como teremos uma sociedade que funcione?”, questiona. Wylie considera que fez um “experimento antiético grosseiro, que brinca com a psicologia de toda uma nação sem o consentimento ou a consciência dela no contexto de um processo democrático”.

Ele disse ao jornal britânico que o Facebook solicitou em 2016 que a Cambridge Analytica excluísse dados privados roubados de seus usuários em 2014. A empresa ignorou o pedido e o que mais impressionou Wylie foi que o Facebook nunca conferiu se a Cambridge Analytica havia excluído os dados ou não. Apesar de saber que a empresa roubou dados privados de seus usuários, o Facebook suspendeu a conta da Cambridge Analytica somente na última sexta-feira, quatro dias após a reportagem do The Guardian solicitar a resposta do Facebook sobre o caso.

Na entrevista que circula em vídeo pela rede, chama a atenção uma declaração de Wylie sobre a filosofia por trás da iniciativa da Cambridge Analytica: “Se você quiser mudar estruturalmente uma sociedade, você terá de quebrá-la. Só quando você conseguir quebrá-la, você conseguirá juntar os pedaços de acordo com a sua visão de uma nova sociedade. (…) Essa foi a arma que Steve Bannon quis construir para a sua guerra cultural”.

Sobre a entrevista de Wylie, o professor Kogan disse ao The Guardian que tudo o que fez é legal e que tem um relacionamento próximo com o Facebook que, por sua vez, teria autorizado o uso de seu app. O Facebook disse ao jornal britânico que proteger a informação das pessoas é o cerne do que a empresa faz: “nós exigimos o mesmo das pessoas que operam apps no Facebook.”

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E o Brasil segue em Guerra Fria

Desfruto de um Tempranillo de Navarra guardado há dois anos para tentar engolir os pesados 50 de pura discórdia instaurados no meu país. A confusão de argumentos é tanta que é difícil trazer as pessoas a um nível emocional que facilite uma discussão política racional.

O que mais me incomoda é que quem capitaneou esta bagunça hoje não está mais entre nós para se explicar. Apenas seus “pau mandados” que não conseguem se entregar ao óbvio. Aliás, “pau mandados” de vida livre garantida pela Lei da Anistia e pesadas doses de antidepressivos.

Vou portanto desenhar:

Foi um período macabro, errado e feio? Foi. Foi um período de crimes covardes, de silêncio e tortura de um povo refém? Foi. Foi um período no qual aqueles que deveriam ser os mais patriotas se entregaram à lógica imperialista norte-americana em detrimento da lógica imperialista soviética? Foi.

Guerra Fria inacabada

Era um contexto diferente. Quem estava no Hemisfério Sul respirava uma guerra alheia e era pressionado a se decidir. A elite civil e militar brasileira optou pelo estilo norte-americano que apoiou regimes assassinos contando com forças de segurança subservientes na América Latina.

O mais interessante é que norte-americanos e soviéticos tiveram pouquíssimas baixas. Quem morreu e fez da Guerra Fria uma manobra duradoura e quente como o fogo do inferno foram as populações dos “países do Sul”, mergulhadas em guerras de libertação e ditaduras miseráveis.

Eu não consigo reconhecer isto tudo como uma política genuinamente brasileira. Não houve escolha democrática dos governantes. Houve uma influência externa invasiva e violenta que resultou em uma ditadura brutal.

Logo, a discussão racional e a superação deste período ainda são necessárias.

Que os arquivos sejam abertos, que o resgate da história seja feito e que, finalmente, o “processo de cura” na sociedade brasileira seja levado a cabo. Tal processo deveria ter começado com a Lei da Anistia nos anos 1970.

Estamos atrasados. Ainda ouvimos parlamentares mofados e cancrados com a mesma ladainha dos 1980 – tanto de um lado como do outro.

Que se pare de colocar a sujeira para baixo do tapete e se mostre tudo o que aconteceu. E, finalmente, entenda-se este período como um conjunto de erros políticos assassinos que não devem mais ser repetidos.

Corra, Dilma, corra

No entanto, hoje são vividos no Brasil cacoetes de ditadura das personalidades mais inesperadas.

Eu, pessoalmente, tenho alguma pressa de que seja reconhecido oficialmente no Brasil, de uma vez por todas, que patrulhar movimentos sociais e a sociedade civil é um ato da mais sofisticada ditadura e um crime contra os direitos humanos.

Logo, que o Estado brasileiro monitore as quadrilhas de criminosos, mas não se atreva a grampear lideranças de movimentos sociais. Que não se atreva a monitorar cidadãos inocentes. O Estado precisa ter limites.

No governo Dilma, principalmente depois das manifestações de 2013, isto está acontecendo e deve ser visto como uma contradição do Estado democrático de direito.

Se o governo petista teve a virtude de fomentar a chamada “Comissão da Verdade”, por exemplo, que não anule a sua contribuição positiva, reproduzindo um regime de perseguição ideológica aos seus cidadãos.

Sabe-se que o Estado é uma máquina facínora por natureza. Ele procura o ator que o ameaça e não mede esforços para o extirpar. A onda de manifestações fez com que a faceta autoritária de vários governos aflorasse mundo afora.

Controle da internet, monitoramento de grupos sociais descontentes e até mesmo prisões arbitrárias estão no escopo da moderna alegada defesa do Estado. Isto é autoritarismo puro, a um passo do perfil ditatorial clássico.

No final desta história, acabamos concluindo que a onda de contestações – que afinal deveria provocar uma onda de democratização ou afirmação da democracia pelo mundo – acabou por estimular o autoritarismo nestes Estados confusos, nestas pseudo-democracias (ou autoritarismos competitivos – como Egito, Venezuela, Angola, etc) ou democracias vulneráveis (Brasil, Espanha, México, etc).

A cura atrasada

Outros países fizeram o seu “processo de cura” com mobilização social extraordinária e contaram com as novas gerações de suas forças de segurança como aliadas importantíssimas.

Vejamos o exemplo do exército alemão, que consegue hoje se descolar do nazismo sem perder a marcialidade. Fazem um trabalho invejável junto à mídia e são bem compreendidos pela sociedade como um instrumento de um Estado em que o cidadão alemão pode até reclamar, mas confia.

O alemão comum acha que o exército é necessário, apesar do nazismo. Ou seja, há um “processo de cura” social que o brasileiro ainda não fez sobre as suas ditaduras.

Daí não consigo compreender porque as novas gerações de militares brasileiros ainda tentam justificar ações descabidas e covardes de quem cumpria cegamente ordens contra compatriotas.

Eu não sei quais camisas eram vestidas dos dois lados. Um vestia a camiseta norte-americana e o outro, a soviética ou chinesa. Ninguém vestia a camiseta brasileira.

Alguns militares brasileiros ainda estão, nos dias de hoje, pesados, carregando um fardo desnecessário. São jovens que compraram uma luta que não é deles. As instituições evoluem. E as forças de segurança devem evoluir também.

Por favor, não obstruam a ordem natural das coisas e larguem o discurso reacionário. Vocês não precisam disso.

Os militares são servidores do Estado. As forças de segurança são instrumentos do Estado. Não são o Estado nem pertencem a um partido político azul ou verde. São apenas forças de segurança pagas pelo contribuinte.

Deixar-se convencer que Castelo Branco ou Figueiredo foram presidentes legítimos é, no mínimo, temerário. Os generais, mesmo que esperneassem, hesitassem ou até mesmo desafiassem, acabavam servindo aos presidentes norte-americanos da época, que tratavam suas áreas de influência como apêndices dos Estados Unidos.

O discurso do jegue

É preciso mudar o discurso. É hora das lideranças brasileiras, como a própria presidenta Dilma, investirem em um discurso conciliador. A abordagem pode ser mais histórica do que política porque o contexto é outro. O muro caiu.

Nem mesmo o partidão existe mais.

Eu ouvi neste verão brasileiro a frase “você é vermelho”. Senhoras e senhores, os tempos são outros. O Brasil é outro. Não há mais espaço para este tipo de frase deslocada de contexto. A Guerra Fria acabou, apesar de suas viúvas.

Não se pode mais aceitar as novas gerações da esquerda resgatarem o bizarro com discursos inflamados, promovendo a caça às bruxas fora de contexto. Do mesmo modo, é difícil engolir as novas gerações de militares criarem oposição a tais ativistas. Não é lógico. É deslocado do tempo.

Ambos resgatam, de forma ridícula, os efeitos da Guerra Fria no Brasil, já bastante superados pelos próprios países protagonistas da tal guerra.

Aí começamos a entender porque algumas pessoas neste país contribuem bisonhamente para que o jumento empaque e a democracia não avance. São mentalidades retrógradas voltadas a um passado que obviamente não pode ser esquecido, mas superado.

Decidam-se pela democracia

Tudo isto deveria ser simplificado. Eu, pessoalmente, concordo que tudo deve ser aberto e revelado. Arquivos devem ser expostos e memoriais devem ser construídos.

Que os fantasmas dos antigos generais sumam da Academia Militar das Agulhas Negras e que museus de reconciliação da sociedade com as suas forças de segurança sejam erguidos. É necessário que erros sejam assumidos para que nada disso se repita no Brasil.

No entanto, se ainda existirem descontentes, pelo bem comum, eu sou a favor da escolha popular entre duas alternativas para que finalmente se avance na questão: ou se respeita a Lei da Anistia ou se julga, de uma vez por todas, quem matou e quem torturou em ambos os lados.

Nós vivemos um tempo de carências absurdas em praticamente tudo. Estar-se farto da classe média mesquinha, esquerdista ou direitosa, continuar com a ladainha antiga pregando a divisão idiota da sociedade graças à Guerra Fria é, portanto, natural.

Se o lema dos culpados pelas atrocidades era “morrer pelo Brasil”, que, portanto, se engula a Anistia e seja feita a justiça e a vontade destes assassinos. Os velhos delegados, majores, capitães, tenentes e sargentos da época devem “morrer pelo Brasil” em uma jaula, conforme a sua vontade – pelo Brasil.

Os guerrilheiros que assassinaram cidadãos inocentes, também. Sejam julgados e morram em uma jaula pelo Brasil conforme a sua vontade.

Enfim, sacrifiquem-se pela justiça no Brasil. E, por favor, deixem a população brasileira construir uma democracia que a represente com justiça social e ter o direito de escolher seus governantes. Lava-se a roupa suja e seca-se o que restar.

Seja feito o “processo de cura” necessário, urgente e deslocado da Guerra Fria.

Assim, pune-se os culpados. Faz-se justiça à memória e às família dos civis assassinados e se segue tentando implantar a democracia neste país, uma tarefa já bastante complicada para as novas gerações.