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Asas de anjo e esporas de galo

Marcio Pessôa, de Maputo.

A abertura da linha de crédito de 98 milhões de dólares para investimentos agrícolas no Zimbábue é uma medida audaciosa dos gestores da política de cooperação do governo brasileiro. Porém, assusta.

Há 34 anos no poder, o ditador zimbabueano, Robert Mugabe, faz parte do grupo de líderes que alguns analistas chamam de “Irmandade da África Austral”.

Um time fechado, que congrega personalidades e grupos políticos que lutaram contra o poder colonial e posteriormente acumularam fracassos como gestores públicos, sem revezar o poder com outras correntes.

O neoliberal Zimbábue era considerado, no início dos anos 1990, o “Celeiro da África”, abastecendo a vizinhança com uma agricultura pujante e orgulhosa. O setor primário, dominado por uma elite de agricultores brancos, era a força motriz da economia do país.

Sem querer criar instabilidade em um setor que funcionou muito bem durante 20 anos, Mugabe resistiu à pressão da ala radical de seu partido, a União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu-PF), que queria a distribuição total das terras para os negros desde 1980.

No entanto, apesar de manter a estabilidade no setor primário, a violenta, viciada, clientelista, pesada e corrupta máquina estatal zimbabueana, ao longo dos anos 1990, fez a crise econômica global ficar insustentável no país e o cenário político, desfavorável ao regime.

O rabo de arraia de Mugabe

Em 2000, a Zanu-PF fraudou as eleições legislativas e mudou o regime. Mugabe adotou um populismo revanchista e um autoritarismo sanguinário. Divorciou-se do neoliberalismo ocidental e das instituições de Bretton Woods. Colocou o africanismo e a negritude na ponta da língua, reprimiu as forças de oposição e encabeçou um governo mobilizado para uma espécie de “guerra civil” contra o neocolonialismo branco.

Finalmente, iniciava-se o refluxo do Apartheid que vigorou na antiga Rodésia do Sul. O regime convocou os ex-combatentes para uma suposta “relibertação”. Recrutou um exército informal de 40 mil homens com paus e pedras, prontos para espalhar o terror nas zonas rurais. A Zanu-PF se preparava para pagar a promessa de 20 anos – dava terras aos negros, expropriando zimbabueanos brancos sem agentes do Estado, na informalidade. Eram jagunços mergulhados em um revival fajuto da guerra de libertação.

Mugabe sabia que era o melhor momento para recuperar a massa. Sabia que nem mesmo o know-how dos agricultores brancos iria salvar a economia do país. Não tinha nada a perder. Todos que não eram pró-Zanu-PF, sejam negros ou brancos, eram inimigos e “trabalhavam para os brancos neocolonialistas ocidentais”.

No meio da crise política, com perseguições a ativistas da sociedade civil e integrantes de partidos de oposição, execuções sumárias e violência na desapropriação de terras, a economia agonizou. No verão de 2008, a inflação chegou a 231.000.000% – a maior do século. O Banco Central emitiu a nota de 1 trilhão de dólares zimbabueanos. Era o fundo do poço.

O pouco que se tinha nas prateleiras dos supermercados vinha da solidariedade da tal “Irmandade da África Austral”. A população tornou-se miserável. Os setores produtivos sucatearam. Quase todos os trabalhadores caíram na informalidade. Com o isolamento e os embargos ocidentais, o MDC do ex-líder sindical Morgan Tsvangirai ganhou mais força.

A tática ocidental para tirar Mugabe parecia começar a dar certo, mas o povo sofria como nunca.

Abordagem fracassada

Após sucessivos pleitos fraudulentos, vieram as presidenciais de 2008. Mugabe perdeu o primeiro turno e convocou os ex-combatentes para uma nova campanha de violência nas zonas rurais. Dessa vez, nada a ver com diferença racial. Agora, a pauta era aniquilar as “diferenças políticas”. Tsvangirai desistiu do pleito, alegando que seus militantes estavam sendo massacrados.

Centenas foram assassinados, torturados e deslocados pelas milícias juvenis da Zanu-PF e pelos ex-combatentes. A crise foi mediada pelos líderes africanos da “irmandade”. A solução pífia para o impasse foi a partilha de poder, que garantiu as forças de segurança e as minas de diamantes para a Zanu-PF e as pastas de revés político como Economia, Saúde e Educação para o MDC.

Tsvangirai perdeu o respeito de alguns aliados por aceitar uma partilha de poder mal feita, com medo de sair com as mãos vazias de um conturbado momento político, quando vencera as eleições. Durante o governo conjugado da Zanu-PF e do MDC, questões graves ligadas aos direitos humanos, à agricultura, à saúde e à educação não foram resolvidas – muitas vezes com soluções barradas espertamente pela Zanu-PF.

O MDC no governo não representou avanço algum e a Zanu-PF soube faturar politicamente com isto. Era mais uma vitória de Mugabe e da tal “irmandade”. Nas eleições de julho de 2013, o MDC chorou sozinho. Mugabe fraudou o pleito, mas ficou provado que ele ganharia mesmo se não fraudasse.

Ficou claro que a agenda ocidental para o Zimbábue se esgotou.

As “boas intenções”

É nesse jogo extremamente delicado que o Brasil se mete com mãos angelicais e cheias de boa vontade. Claro que ninguém é tolo de pensar que tudo isto é “bondade” do governo brasileiro.

O fato é que Dilma se aproxima de Mugabe para financiar projetos agrícolas no Zimbábue com dinheiro do contribuinte brasileiro. Vale lembrar que atrás das asas angelicais de Dilma, quem tem rido à toa nas incursões do Brasil na África com recursos do BNDES são os mega-empresários brasileiros – galos de esporas afiadas, que cantam à vontade em terreiro alheio com dinheiro alheio.

Eu acredito que a questão tem dois pontos sensíveis de partida.

Primeiro: é, sim, hora de mudar a abordagem sobre a questão zimbabueana. A transição democrática do país não passa por mais sofrimento do povo, mas por paciência e exaustiva negociação inteligente. É preciso dar crédito, mas a Zanu-PF precisa ceder e abrir o Estado para a sociedade, criando projetos sérios de exploração racional das riquezas do país em favor da população. Já não se pode mais encarar o governo do Zimbábue como se fosse somente personificado em Mugabe – um ditador de 89 anos.

A Zanu-PF tem dissidências e é plausível pensar que seu principal líder talvez não cumpra o mandato pela idade avançada. Assim, é possível aproveitar as alas menos radicais do partido para inserir o Zimbábue, a longo prazo, novamente, no cenário político internacional.

A abordagem norte-americana e europeia a favor do inoperante MDC ficou completamente sem sentido. A população não merece sofrer mais com embargos econômicos para a criação de possíveis cenários favoráveis a uma oposição confusa e acéfala.

O Brasil poderia ser mais criativo condicionando um pouco mais esta ajuda toda. Claro que não é necessário reproduzir a estratégia ocidental, que exigia praticamente a renúncia de uma estrutura partidária que não iria sair do poder, criando apenas um impasse desconfortável. Com a queda do MDC e a senilidade de Mugabe, creio que há um cenário novo e um espaço para novas ideias de atores nacionais e internacionais.

Legitimando o revanchismo

Segundo: concordo que o governo brasileiro deva cooperar cuidadosamente com o Zimbábue. No entanto, é preciso ficar alerta porque é muito fácil os recursos liberados pelo BNDES irem diretamente para o ralo da corrupção do país.

Mais fácil ainda é Dilma sujar as mãos em um conflito que não tem nada a ver com o Brasil. Não se pode esquecer que o programa zimbabueano de redistribuição de terras é ilegal – de acordo com a própria Corte Suprema do Zimbábue em 2001. É um ato de puro populismo e revanchismo racista, fruto de um regime que estava em desespero no início dos anos 2000.

É necessário acompanhar como e onde estes recursos serão aplicados. O Brasil não pode legitimar o programa racista de expropriação de terras de Mugabe e está muito próximo de fazê-lo.

Por outro lado, a bandeira da produção de alimentos em um país em crise alimentar é legítima e precisa ser considerada. Afinal, os agricultores negros que receberam estas terras precisam produzir e, independentemente dos conflitos internos, diante da urgência da miséria zimbabueana, esta terra não pode ficar ociosa – alguém precisava dar crédito e a mudança de abordagem sobre a crise zimbabueana passa por atitudes externas como esta.

É um dilema delicado. Uma questão difícil de entrar sem se sujar. Estamos diante de mais um tema sensível sobre a influência do Brasil na África que não terá a merecida discussão na sociedade brasileira – um grupo gigantesco de contribuintes que financiará tudo isto através do BNDES.

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