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Como desmontar a Brasil S/A?

A lista de Fachin e a publicação dos depoimentos da Odebrecht são ações de uma dimensão tão extraordinária que podem ajustar o debate político no Brasil, impulsionando questões que estavam invisíveis à população histérica nas arquibancadas do jogo de cena de figurões políticos.

Ela ameniza a polarização de “mocinhos” e “bandidos”, e nos aproxima de discussões cruciais sobre o poder. A lista e a publicação dos depoimentos deixam claro que ideologias foram relegadas a segundo plano e que alguns de nossos mais persuasivos representantes são freelancers de vários patrões e de vez em quando batem cartão para serem pagos também pelos impostos dos cidadãos. Em meio a um massacre moral, exausta, a população ainda precisa encontrar energia para vigiar as reformas preocupantes e afoitas de Michel Temer e dimensionar os heróis súbitos da Lava Jato.

Por exemplo, a tese do procurador Deltran Dallagnol e seus colegas sobre a chamada “propinocracia”, se não é viciada, é agora nitidamente equivocada. A lista deixa claro que o centro do gráfico do PowerPoint é na verdade um dos vértices de um polígono multipartidário bem remunerado por nós e por megaempresas. Há vários figurões empregados na Brasil S/A – uma máquina invisível que semiprivatiza o Estado e tem como sócios majoritários não somente os Odebrecht, mas outros magnatas brasileiros e estrangeiros. Portanto, buscar centralizar o desgaste político em um personagem me parece equivocado porque a questão é evidentemente sistêmica.

A publicação da lista e das delações lançam luz sobre episódios obscuros na história recente. Por exemplo, Emílio confessa que a polêmica quebra do monopólio das telecomunicações nos anos 1990 foi desenhada por executivos contratados pela Odebrecht, Globo e outras empresas para “auxiliar o governo”. Talvez por esta influência excessiva do mercado, alguns estados condicionaram privatizações à consulta popular. Ou seja, agora parece nítido para muitos que dar poder decisório à população significa reduzir o poder plutocrata e a previsão legal disto é uma iniciativa razoável para equilibrar forças.

Assim como os procuradores federais, Sérgio Moro deveria estar longe de ser crucificado ou endeusado. No entanto, a lista de Fachin e as delações da Odebrecht revelam tendência política constrangedora nas iniciativas do magistrado. Afinal, não se espera que alguém na sua função exponha e busque a apuração dedicada de operações de apenas um grupo de freelancers, mas de todos os freelancers da Brasil S/A. Mesmo com questões sensíveis em aberto, a Lava Jato tem méritos. A população tem a chance de discutir ética na política se debruçando sobre problemas concretos e cobrar soluções.

A lista e a publicação das delações são tão contundentes que acentuam a onda de ceticismo que tende a colocar políticos no mesmo saco. Por outro lado, a classe política tem de se dar conta que é responsável pelo seu destino. O mínimo que poderia fazer é sugerir uma reforma política e institucional conectada à sociedade, que não se resuma a novas regras de financiamento de campanha. Tal reforma deve se basear no interesse de depuração dos partidos, mas fundamentalmente na instalação de normas e práticas modernas que acabem com a Brasil S/A e deem mais peso decisório à população. Presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares devem ter o poder proporcional ao risco brutal que oferecem e ao seu potencial de falência.

Vemos diversos mecanismos de participação e transparência pelo mundo que podem ser inspiradores. Candidaturas independentes ou avulsas e prévias amplas para escolha de candidatos podem ajudar a reduzir o poder de caciques. Petições e consultas públicas poderiam ter maior peso na aprovação e anulação de projetos de grande impacto econômico, social e ambiental. Existem normas de descentralização do poder local em diversos países que podem ser vistas com mais atenção.

A tecnologia já nos oferece caminhos para a criação de plataformas de debate, fiscalização e decisão coletiva adequadas a nossa realidade. Há modelos baseados em experiências brasileiras que dão certo pelo mundo, adaptados a culturas locais. O Orçamento Participativo, por exemplo, é um modelo importante que se modernizou e fortaleceu em outros países, mas se enfraqueceu no Brasil. Por que? O exercício da cidadania teve retrocessos em algumas regiões. Em outras, ainda está baseado em votar e ser votado.

A leitura do poder

A publicação das delações não revela uma mecânica nova. Corporações despendem bilhões em propinas e favores em nível local, nacional e internacional. O “chefe” fala como “gerenciava a expectativa” de seus freelancers parlamentares e, por vezes, revela irritação com a ganância e ineficiência deles. Ou seja, se nós nos indignamos com a inoperância política, os empreiteiros também se indignam com a péssima prestação do “serviço pago”.

Steven Lukes, na sua obra Power: a radical view, avalia que poderosos não somente influenciam tomadas de decisão, mas também definem a pauta dos subalternizados sem que estes últimos se deem conta disto. No Brasil, há pouco tempo, as redes sociais estavam sintonizadas em subtemas político-partidários enquanto o poder de fato controlava o país e permanecia escondido, sem ser discutido.

A população debatia (ou debate) apaixonadamente quem estava menos sujo numa sinergia de raiva que aflorava o egoísmo puro que fomenta nossa violência diária. Adeptos de fórmulas mágicas e mutes espirituais, cidadãos apaixonados reduziam discussões complexas e cruciais, e até cogitavam abrir mão de direitos civis e políticos em favor do retorno da ditadura. Finalmente, os últimos episódios da crise política podem nos dar a chance de colocar os pés no chão se tudo for conduzido como deve ser.

A reforma política e institucional passa por desmontar a Brasil S/A e equacionar a questão “democracia representativa” no Brasil. Ou seja, como transformar os nossos agentes públicos e políticos em secretários que conduzam demandas da sociedade à máquina estatal? Como fazer com que esta máquina intermedeie interesses de forma equilibrada e devolva um produto de qualidade? Esta é a discussão que precisa ser feita em todos os espaços públicos.

Mesmo cansada, a população precisa participar diretamente dessa reforma. Do contrário, estará sempre vulnerável ao poder corruptor do mercado – que não tem como ser controlado, mas pode ter seus impactos reduzidos.

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Caros petistas, sejam bem-vindos de volta á luta

Primeiro lugar, gostaria de dar as boas-vindas aos amigos e militantes petistas que saíram nesta semana do Estado para voltar à sociedade civil de verdade, aquela que desacata. Um espaço que estava amansado por uma índole pelega que – como já era de se esperar – tomou conta do país nos anos 2000. Em qualquer parte do mundo, esta é a regra do jogo. Quando boa parte dos ativistas vão para a estrutura do Estado, eles e suas organizações são, em consequência, engolidos por este Estado. Isto apaga a chama das lutas por questões que realmente fazem sentido.

A vida é assim.

A expectativa agora é que vocês reativem este espaço que precisa ficar pulsante nas ruas, nos bairros, nas associações de classe – nos espaços conquistados e convidados (parlamentos, conselhos, etc….). Para quem está cansado do poder exclusivamente político-partidário e enxerga a participação direta do povo em questões que realmente interessam, o retorno de vocês é um alento. Sejam bem-vindos.

Endosso os clamores que exigem que a democracia siga um caminho que renda frutos para a nação, não somente para a elite. Condeno a resposta agressiva da polícia, que a cada ação desproporcional destrói a vida de várias pessoas. Jovens que têm muito para contribuir para o país, que os agentes públicos de segurança deveriam defender, mas acabam aleijando. É deplorável a incompetência gritante do Estado no setor da segurança em todas as dimensões.

Gostaria de estar ao lado dos militantes nas ruas se me identificasse com suas bandeiras desbotadas político-partidárias, mas não consigo. Desculpem, eu abraçaria o discurso de novas eleições, um revival do “Diretas Já!”. Aliás, isto faria muito sentido neste momento.

Para mim, os que acham que houve golpe e os que acham que não houve golpe não merecem Michel Temer nem como representante de turma numa escola primária, quanto mais em um mandato tampão num momento tão conturbado. Digo isto ao observar tudo o que está por trás de Temer e de seus amigos que capturaram o governo em uma manobra que não teve nada de genial. Foi uma ação articulada que encontrou espaço na inépcia política da presidente e de companheiros que criaram raízes no poder e se desgastaram, fazendo alianças até com aquele que “cheira a enxofre”. Aliás, Temer abriu a porta dos fundos desta casa para um grupo cansado, indiciado e obscuro. Todos estão vendo isto.

Por outro lado, os viúvos da presidenta deposta tentam capturar uma luta que deveria ser de todos os brasileiros. Mas por que não é?

Vejamos, eles não estragam a luta porque, afinal de contas, alguém tem de começar. No entanto, eles a ideologizam com um discurso que não convence a todos. É bom ir para rua, mas é melhor ir para a rua lutar por algo que faça sentido para todos. E vocês têm tudo isto caindo de maduro na frente de vocês. A democracia faz sentido, eleições diretas fazem sentido, mas a anulação de um processo legal não faz sentido.

Vejo imagens da ocupação dos espaços públicos pela retórica do golpe, que não convence a todos e é político-partidária. Não houve golpe de Estado, mas a radicalização do estado de direito. Isto acontece de vez em quando no Brasil… muito mais em nível local, eu diria, quando se tenta incriminar os menos poderosos “radicalizando provas”. Em nível político, quando é conveniente para alguns poucos, como aconteceu com Collor, por exemplo. Não digo que isto é bom, mas o sistema permite isto. E em 13 anos, ninguém conseguiu mudar o sistema. Por quê?

Aliás, um Estado radicalizado exacerba o seu poder, torna-se inconveniente ao desenvolvimento político pelas suas arbitrariedades e ao desenvolvimento econômico por conceder privilégios a quem é do time ou beneficia o time. O mínimo que eu espero é que o tal “crime de responsabilidade” que valeu o impeachment da presidenta sirva de exemplo e inspiração para a limpeza necessária e atrasada. Agilizar o julgamento dos parlamentares indiciados e dos governadores que cometeram e cometem crimes de responsabilidade, por exemplo, passa a ser o caminho natural das coisas. Qualquer ação que não seja esta nos retoma ao pesadelo da terra da impunidade e da politicagem.

Creio que a atual mobilização e ação coletiva do Judiciário, da PF e de setores da sociedade civil está tendo algum sentido, mas tem de continuar. Do contrário, a ofensiva contra a presidenta será vista historicamente como politicagem barata.

Para mim, a missão da década de 2010 é despolarizar o Brasil. E a figura indigesta de Temer e seus convidados, convenhamos, não vai conseguir fazer isto. Unir vozes por democracia, eleições diretas e limpeza da estrutura do Estado é dever de todos. Está na hora dos cidadãos de qualquer cor partidária, que se identifiquem ou não com Dilma, participarem e ocuparem os espaços públicos unindo vozes. A maioria da população quer algo novo, mas quer algo novo de verdade.

Com todo o respeito a Paulo Paim, Raul Pont e Olívio Dutra – ativistas e políticos de boas ideias e respeitáveis – não creio que seja a hora de discursos populistas político-partidários. O momento é para ação nas ruas, mas com uma retórica lógica. Do contrário, não haverá mudança. Temer tem, sim, medo do povo. Mas não vai se abalar facilmente. Ele está bem calçado.

A elite brasileira está apoiada por quem manda no mundo, tem sangue de barata  e está fortemente armada contra o povo nas ruas. Aliás, sempre esteve.

Que pierdan los dos!

No dia seguinte, no elevador da empresa, ouvi o seguinte diálogo:

“O que foi aquilo ontem?”
“Sim! Incrível!”
“Até vibrei no início, mas depois do terceiro gol eu senti muita pena. O que era a dor daquelas crianças na tribuna? Todas chorando!”

Eram colegas, uma alemã e outra portuguesa.

Quem conseguiria imaginar isto? A equipe com mais tradição no futebol mundial simplesmente sucumbe em casa, num estádio lotado, a um passo de chegar à decisão da competição esportiva mais importante e midiática, por um placar muito difícil de se ver no futebol profissional. O que eu ouvi dizer várias vezes foi: “parecia que jogavam contra crianças”.

Pra gente que vive no exterior, cercado de pessoas de tantas nacionalidades, o sentimento é muito chato – inclusive, creio eu, para o brasileiro ou a brasileira que nem se interessa muito por futebol. A gente tem a noção de que realmente o mundo todo viu aquele fiasco e vai ser difícil falar de futebol por um bom tempo fora do Brasil.

Eu demorei dois dias para me comunicar com os meus amigos pelo Facebook. Acho que fiquei dois dias procurando palavras. Só estou escrevendo aqui porque atendo ao pedido de dois amigos especiais que queriam informações sobre como eu estava testemunhando este momento na perspectiva do adversário vitorioso.

Pena, respeito ou engana bobo?

Qual colorado nunca pensou nisso após tomar uma sova num Grenal: como vou sair de casa na segunda-feira? Reproduzo aqui o que já escrevi para Gustavo Scotti no FB:

Naquela noite, “dormi muito menos do que queria com a festa nos últimos gols e alguns raros buzinaços. Queria que o Fred fosse trabalhar comigo no dia seguinte. Encarei uma reunião onde eu era o único estrangeiro – casualmente um brasileiro. Fizeram alusões, mas não se arriaram muito por pena (o que é muito pior do que uma zoação franca). Bom, o Fred também iria curtir receber os SMSs que ainda estou recebendo e também dar uma passadinha no supermercado comigo” para receber as “condolências” (foi esta a palavra que eu ouvi).

Eu simplesmente deixei de prestar atenção aos jornais e canais de TV locais. Sei que eles têm usado expressões como “é um sonho”, “inacreditável”… dificilmente se atrevem a falar em “massacre” ou algo que o valha. Talvez pelo cuidado natural do alemão com este tipo de expressão.

O que mais percebo é um respeito considerável pela tradição do nosso futebol. Um respeito talvez muito maior do que o do brasileiro pela própria Seleção e pelo futebol – este esporte classificado como “arte” por muitos. É claro, aos meus olhos, uma “arte” castigada pela moldura mercadológica e mafiosa, mas capaz de atrair a atenção de centenas de milhões pelo mundo durante os mesmos 90 minutos.

É inegável. Infelizmente, para alguns brasileiros, nesta coisa, o Brasil ainda é destaque e tem um patrimônio de respeito.

Como saí de casa

Horas antes do jogo, lembro-me de ter lido um título da revista Spiegel que dizia: “Robustos contra um Brasil extremamente pressionado”. Foi a melhor frase para definir o cenário e praticamente premeditar o que seria visto em campo – um time à beira de um ataque de nervos contra outro forte, reto e controlado.

Chovia muito no dia seguinte à partida. Acostumado com a cultura Grenal, fui trabalhar buscando argumentos históricos para me defender. Tentava me lembrar dos detalhes de 2002, do quão fregueses eles são, etc… Seria minha arma primeira: “Oliver Kahn amarelou!” “Somos Penta”, etc…

No entanto, os caras me surpreenderam com o respeito. Quem veio com sacanagem e muito sarcasmo foram os outros europeus ou latino-americanos. A maioria dos africanos parecia também pasma e chateada – decepcionada, eu diria.

Gentileza ou bom marketing?

Mesmo com todo este respeito, não pinto os alemães como santos no futebol. Não são. Ainda acho que Podolski, Schweinsteiger e Neuer estão sendo pivôs de um marketing bem calculado, que está dando certo no Brasil. Nada que seja desonesto, é claro. Apenas uma ação extracampo legítima.

Eles sabiam que teriam que passar de qualquer forma pelo Brasil para ir à final. Este projeto – FINAL NO RIO – muito provavelmente contava com a ideia de construir uma atmosfera favorável para a conquista do título no Maracanã.

Fotos com camisetas de diversos clubes brasileiros, interação com a população local, doações, visitas a escolas, elogios gratuitos ao país na mídia social… tudo isto tem grande chance de ser premeditado, para conquistar o público. Todas estas mensagens de elogios ao Brasil e ao brasileiro são destaques na mídia brasileira. Não surgem muito na mídia alemã.

Pelo menos que eu tenha visto. Lembro apenas de ter visto aquelas imagens do Schweini e do Neuer cantando o hino do Bahia aqui na TV alemã e das visitas às escolas. Mas as mensagens pela mídia social, eu vi na imprensa brasileira.

A tese de marketing puro dos alemães ganha mais força se você buscar por exemplo o que aconteceu no México em 1986. A seleção alemã compôs uma canção para conquistar os mexicanos, chamando o México de MI AMOR. Quem lembra disso?

Não dá pra engolir

Mas o marketing faz parte e é bem feito. Podolski e Schweinsteiger talvez fossem os jogadores mais famosos no Brasil antes da Copa e, por isso, talvez sejam os que mais martelam a ideia do “Brasil: país maravilhoso”, “levante a cabeça Brasil”, etc… Aliás, esta última me embrulha um pouco o estômago.

Mesmo assim, gostei da forma que eles trataram o resultado de terça-feira. Eles brincam com a gente, mas não pisam. Há sarcasmo, mas não há humilhação – talvez porque o resultado por si só já é humilhante. Não falam muito do placar, tentam explicá-lo. As sacanagenzinhas são muito mais leves do que qualquer cantito amargo argentino em território brasileiro.

Apesar de todo o respeito, não consigo torcer para outra seleção em uma final de Copa do Mundo no Brasil. Não dá. Talvez seja herança da tal “Cultura Grenal”. Portanto, como disseram alguns hermanos antes das quartas de final de 2002 entre Inglaterra e Brasil: “que pierdan los dos!”

Asas de anjo e esporas de galo

Marcio Pessôa, de Maputo.

A abertura da linha de crédito de 98 milhões de dólares para investimentos agrícolas no Zimbábue é uma medida audaciosa dos gestores da política de cooperação do governo brasileiro. Porém, assusta.

Há 34 anos no poder, o ditador zimbabueano, Robert Mugabe, faz parte do grupo de líderes que alguns analistas chamam de “Irmandade da África Austral”.

Um time fechado, que congrega personalidades e grupos políticos que lutaram contra o poder colonial e posteriormente acumularam fracassos como gestores públicos, sem revezar o poder com outras correntes.

O neoliberal Zimbábue era considerado, no início dos anos 1990, o “Celeiro da África”, abastecendo a vizinhança com uma agricultura pujante e orgulhosa. O setor primário, dominado por uma elite de agricultores brancos, era a força motriz da economia do país.

Sem querer criar instabilidade em um setor que funcionou muito bem durante 20 anos, Mugabe resistiu à pressão da ala radical de seu partido, a União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu-PF), que queria a distribuição total das terras para os negros desde 1980.

No entanto, apesar de manter a estabilidade no setor primário, a violenta, viciada, clientelista, pesada e corrupta máquina estatal zimbabueana, ao longo dos anos 1990, fez a crise econômica global ficar insustentável no país e o cenário político, desfavorável ao regime.

O rabo de arraia de Mugabe

Em 2000, a Zanu-PF fraudou as eleições legislativas e mudou o regime. Mugabe adotou um populismo revanchista e um autoritarismo sanguinário. Divorciou-se do neoliberalismo ocidental e das instituições de Bretton Woods. Colocou o africanismo e a negritude na ponta da língua, reprimiu as forças de oposição e encabeçou um governo mobilizado para uma espécie de “guerra civil” contra o neocolonialismo branco.

Finalmente, iniciava-se o refluxo do Apartheid que vigorou na antiga Rodésia do Sul. O regime convocou os ex-combatentes para uma suposta “relibertação”. Recrutou um exército informal de 40 mil homens com paus e pedras, prontos para espalhar o terror nas zonas rurais. A Zanu-PF se preparava para pagar a promessa de 20 anos – dava terras aos negros, expropriando zimbabueanos brancos sem agentes do Estado, na informalidade. Eram jagunços mergulhados em um revival fajuto da guerra de libertação.

Mugabe sabia que era o melhor momento para recuperar a massa. Sabia que nem mesmo o know-how dos agricultores brancos iria salvar a economia do país. Não tinha nada a perder. Todos que não eram pró-Zanu-PF, sejam negros ou brancos, eram inimigos e “trabalhavam para os brancos neocolonialistas ocidentais”.

No meio da crise política, com perseguições a ativistas da sociedade civil e integrantes de partidos de oposição, execuções sumárias e violência na desapropriação de terras, a economia agonizou. No verão de 2008, a inflação chegou a 231.000.000% – a maior do século. O Banco Central emitiu a nota de 1 trilhão de dólares zimbabueanos. Era o fundo do poço.

O pouco que se tinha nas prateleiras dos supermercados vinha da solidariedade da tal “Irmandade da África Austral”. A população tornou-se miserável. Os setores produtivos sucatearam. Quase todos os trabalhadores caíram na informalidade. Com o isolamento e os embargos ocidentais, o MDC do ex-líder sindical Morgan Tsvangirai ganhou mais força.

A tática ocidental para tirar Mugabe parecia começar a dar certo, mas o povo sofria como nunca.

Abordagem fracassada

Após sucessivos pleitos fraudulentos, vieram as presidenciais de 2008. Mugabe perdeu o primeiro turno e convocou os ex-combatentes para uma nova campanha de violência nas zonas rurais. Dessa vez, nada a ver com diferença racial. Agora, a pauta era aniquilar as “diferenças políticas”. Tsvangirai desistiu do pleito, alegando que seus militantes estavam sendo massacrados.

Centenas foram assassinados, torturados e deslocados pelas milícias juvenis da Zanu-PF e pelos ex-combatentes. A crise foi mediada pelos líderes africanos da “irmandade”. A solução pífia para o impasse foi a partilha de poder, que garantiu as forças de segurança e as minas de diamantes para a Zanu-PF e as pastas de revés político como Economia, Saúde e Educação para o MDC.

Tsvangirai perdeu o respeito de alguns aliados por aceitar uma partilha de poder mal feita, com medo de sair com as mãos vazias de um conturbado momento político, quando vencera as eleições. Durante o governo conjugado da Zanu-PF e do MDC, questões graves ligadas aos direitos humanos, à agricultura, à saúde e à educação não foram resolvidas – muitas vezes com soluções barradas espertamente pela Zanu-PF.

O MDC no governo não representou avanço algum e a Zanu-PF soube faturar politicamente com isto. Era mais uma vitória de Mugabe e da tal “irmandade”. Nas eleições de julho de 2013, o MDC chorou sozinho. Mugabe fraudou o pleito, mas ficou provado que ele ganharia mesmo se não fraudasse.

Ficou claro que a agenda ocidental para o Zimbábue se esgotou.

As “boas intenções”

É nesse jogo extremamente delicado que o Brasil se mete com mãos angelicais e cheias de boa vontade. Claro que ninguém é tolo de pensar que tudo isto é “bondade” do governo brasileiro.

O fato é que Dilma se aproxima de Mugabe para financiar projetos agrícolas no Zimbábue com dinheiro do contribuinte brasileiro. Vale lembrar que atrás das asas angelicais de Dilma, quem tem rido à toa nas incursões do Brasil na África com recursos do BNDES são os mega-empresários brasileiros – galos de esporas afiadas, que cantam à vontade em terreiro alheio com dinheiro alheio.

Eu acredito que a questão tem dois pontos sensíveis de partida.

Primeiro: é, sim, hora de mudar a abordagem sobre a questão zimbabueana. A transição democrática do país não passa por mais sofrimento do povo, mas por paciência e exaustiva negociação inteligente. É preciso dar crédito, mas a Zanu-PF precisa ceder e abrir o Estado para a sociedade, criando projetos sérios de exploração racional das riquezas do país em favor da população. Já não se pode mais encarar o governo do Zimbábue como se fosse somente personificado em Mugabe – um ditador de 89 anos.

A Zanu-PF tem dissidências e é plausível pensar que seu principal líder talvez não cumpra o mandato pela idade avançada. Assim, é possível aproveitar as alas menos radicais do partido para inserir o Zimbábue, a longo prazo, novamente, no cenário político internacional.

A abordagem norte-americana e europeia a favor do inoperante MDC ficou completamente sem sentido. A população não merece sofrer mais com embargos econômicos para a criação de possíveis cenários favoráveis a uma oposição confusa e acéfala.

O Brasil poderia ser mais criativo condicionando um pouco mais esta ajuda toda. Claro que não é necessário reproduzir a estratégia ocidental, que exigia praticamente a renúncia de uma estrutura partidária que não iria sair do poder, criando apenas um impasse desconfortável. Com a queda do MDC e a senilidade de Mugabe, creio que há um cenário novo e um espaço para novas ideias de atores nacionais e internacionais.

Legitimando o revanchismo

Segundo: concordo que o governo brasileiro deva cooperar cuidadosamente com o Zimbábue. No entanto, é preciso ficar alerta porque é muito fácil os recursos liberados pelo BNDES irem diretamente para o ralo da corrupção do país.

Mais fácil ainda é Dilma sujar as mãos em um conflito que não tem nada a ver com o Brasil. Não se pode esquecer que o programa zimbabueano de redistribuição de terras é ilegal – de acordo com a própria Corte Suprema do Zimbábue em 2001. É um ato de puro populismo e revanchismo racista, fruto de um regime que estava em desespero no início dos anos 2000.

É necessário acompanhar como e onde estes recursos serão aplicados. O Brasil não pode legitimar o programa racista de expropriação de terras de Mugabe e está muito próximo de fazê-lo.

Por outro lado, a bandeira da produção de alimentos em um país em crise alimentar é legítima e precisa ser considerada. Afinal, os agricultores negros que receberam estas terras precisam produzir e, independentemente dos conflitos internos, diante da urgência da miséria zimbabueana, esta terra não pode ficar ociosa – alguém precisava dar crédito e a mudança de abordagem sobre a crise zimbabueana passa por atitudes externas como esta.

É um dilema delicado. Uma questão difícil de entrar sem se sujar. Estamos diante de mais um tema sensível sobre a influência do Brasil na África que não terá a merecida discussão na sociedade brasileira – um grupo gigantesco de contribuintes que financiará tudo isto através do BNDES.

A seleção por duas cheetahs saudáveis

Marcio Pessôa, de Harare

O Zimbábue terá três dias úteis nesta semana devido aos feriados desta segunda e terça-feira que lembram os heróis da independência e as forças armadas. Dois eventos de efusivos discursos patrióticos no Estádio Nacional, local da goleada de 3 a 0 do Brasil contra a seleção local há quase dois meses.

O mesmo jogo é alvo de investigação devido ao suposto desvio de recursos por parte de representantes do setor de turismo e da Federação Zimbabueana de Futebol. Conforme o jornal local The Standard, os agentes brasileiros teriam pedido US$ 2 milhões e mais dois “King Cheetahs saudáveis”.

Eu li mil vezes para acreditar que estava escrito que os agentes da seleção teriam pedido duas cheetahs saudáveis como pagamento. Dois felinos selvagens em extinção incluídos em uma negociação para a apresentação da seleção brasileira. Isso deveria ser melhor explicado. Se estes animais realmente foram tirados daqui e foram parar no Brasil, para quê serviriam, qual o motivo de incluí-los em uma transação deste caráter?

Impacto econômico: lojas sul-africanas reduzem preço da camisa para queimar o estoque após fracasso na copa.

Nossa diplomata

Os termos da negociação são mais exóticos do que os próprios felinos e esclarecem bastante sobre o tipo de gerência da seleção brasileira. No final, a CBF teria recebido US$ 750 mil desta quantia e o ponto da investigação é onde foi parar o US$ 1,25 milhão restante. O dinheiro teria sido arrecadado por organizadores zimbabueanos junto a instituições privadas e ao governo. Tudo isso num país onde alguns funcionários públicos não recebem salários há dois anos e os que recebem vivem, em média, com 150 dólares por mês.

Entretando, nas ruas de Harare, até mesmo nas zonas rurais, o fato de os “samba boys” terem jogado no Zimbábue, mesmo com estes bastidores nebulosos, parece ter sido a realização de um sonho em massa. Esse capital social enriquece ainda mais o futebol brasileiro. O africano se identifica demais com a seleção, talvez pelo fato de suas principais estrelas serem negras e pelo estilo de jogo, historicamente alegre como as manifestações culturais africanas.

Amigos inseparáveis: Mr. Mavhiki, meu anfitrião em Harare, e a camisa da seleção brasileira

Na viagem a Kwekwe, a 300 km da capital zimbabueana, paramos em um hotel simples para fazer uma refeição. Fui até o bar do estabelecimetno, onde seis homens com suas cervejas permaneciam escorados no balcão em postura não muito amistosa. Perguntaram-me de onde sou e, quando disse que era brasileiro, a atmosfera mudou. Todos se referiam ao Brasil com muito respeito e carinho. A impressão que tive é que pouco sabiam sobre o Brasil até o dia em que a seleção motivou matérias na mídia local.

Apelo internacional

Quanto mais tempo passo fora do meu país, mais amadurece a idéia de que a seleção brasileira não pertence somente ao Brasil. O futebol enquanto inegável patrimônio cultural da humanidade (ainda não reconhecido oficialente) nos permite dizer que a camisa canarinho tem hoje uma expressão capaz de estabelecer diálogo entre raças e credos por ser o maior ícone deste esporte no mundo.

O desfile de cores e camisetas da seleção brasileira pelas regiões mais pobres e esquecidas do mundo não pode ser ignorado, assim como também deve ser considerado o fato de as cores do Brasil serem sinônimo de alegria e alto astral nas mais frias cidades da Europa.

Agora com bandeirinha sul-africana: não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro

A amarelinha já é a nossa maior diplomata. É claro que é brasileira, mas virou patrimônio da humanidade. O signo “seleção brasileira” faz com que o brasileiro seja aceito e bem recebido em qualquer parte do mundo. Por isso, aos meus olhos, cobrar US$ 2 milhões de dólares por um amistoso em um país na situação do Zimbábue é bastante discutível. E, como se não bastasse, ainda pedir exemplares de animais em extinção para negociar uma apresentação da seleção é inaceitável. É ignorar o que a seleção brasileira representa mundo a fora.

Abaixo imagens de uma King Cheetah em um zoológico na Austrália. A espécie é originária do Zimbábue e teria população de apenas 60 a 80 exemplares no mundo.

Abaixo os gols da partida e o gesto ainda não explicado de Michel Bastos após o gol.