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O silêncio da chanceler e os gritos da presidente

O gigantesco motor de monitoramento ilegal da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) é uma ferramenta ocidental – beneficia também os países da União Europeia. Restringir a atividade desta máquina vai causar impacto em toda a rede de inteligência dos países alinhados e isto não interessa para os governos europeus.

Em outras palavras, após este vendaval provocado por Edward Snowden, dificilmente algo vai mudar. Apenas, é claro, a vida do delator – o novo Cristo da “arapongagem cibernética”. No entanto, há também quem tenha algum revés político nesta história. O silêncio da chanceler Angela Merkel, por exemplo, dá munição à oposição na Alemanha.

“A senhora Merkel jurou evitar danos ao povo alemão quando tomou posse. E agora vem à tona que direitos básicos dos cidadãos alemães foram amplamente violados”, reclamou o candidato social-democrata nas eleições de setembro, Peer Steinbrück, em declaração ao jornal Bild am Sonntag há alguns dias.

A ministra da Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, disse que se o monitoramento de cidadãos de outros países pela NSA for realmente comprovado, trata-se de “uma catástrofe”. Ela sugeriu que o tema fosse discutido no âmbito da União Europeia, o que provocou algum mal-estar nas relações do bloco com os Estados Unidos e o Reino Unido.

Mal-estar?

Acredito que a ministra estava sendo sincera, mas qualquer mal-estar entre as cúpulas dos principais países europeus e os EUA, neste caso, é pura performance teatral.

As informações acumuladas pelas agências britânicas e norte-americanas são compartilhadas com os órgãos de inteligência dos países alinhados assim que solicitado. Desta forma, todos levam vantagem e quase tudo se compartilha… Quase tudo porque ninguém garante que o que não é solicitado é enviado.

Talvez algum desgosto fique somente no âmbito da imprensa, da maioria leiga, parlamentares e possíveis alvos de espionagem. Para a comunidade de inteligência dos países ocidentais, o ruim foi ver “o garfo e a faca” da refeição diária serem arranhados em debates constantes na mídia global, fomentados pelo quase apátrida Edward Snowden.

Sem limites

A comunidade de inteligência não tem fronteiras. Ela funciona em redes de alianças e sua autonomia transcende os poderes do Estado. A máquina bisbilhoteira dos EUA ajuda os sistemas britânicos, franceses e alemães e é alimentada por eles.

Trata-se de uma parceria de décadas, tão incrustada na cultura dos governos que ninguém questiona. Apesar de a chanceler Merkel negar, neste setor, os fins justificam os meios e ponto: lavam-se as mãos em nome da “Guerra contra o Terror”, que um dia foi “Guerra Fria” e que um dia terá outro nome fantasia para que mais uma arbitrariedade seja engolida.

De acordo com a mídia alemã, o Serviço Alemão de Inteligência (BND, na sigla em alemão) solicitou repetidamente dados compilados e armazenados pela NSA sobre alemães sequestrados em outros países nos últimos anos. A questão é como o BND sabia que estes dados estavam disponíveis e poderiam ser colhidos.

Hoje se debate se o mesmo software norte-americano foi usado na Alemanha. Todos perguntam se Merkel sabia que este instrumento estava à disposição, mas, para mim, a pergunta merece ser ajustada.

A questão é se ela sabia de que forma este material costuma ser coletado. Geralmente, o que se sabe, é que é dentro da lei, com autorização judicial. Mas agora com a NSA, a coisa mudou de figura.

Pode custar a reeleição

Admitindo que sabe da parceria, a chanceler confessaria que estaria ciente de que dados coletados ilegalmente pela NSA estavam sendo compartilhados pela inteligência alemã em sua gestão. Se o candidato da oposição fosse um pouco mais forte, isto poderia complicar uma nova reeleição dos democrata-cristãos.

O debate em cima dos sigilos telefônicos na Alemanha é bastante cuidadoso e avançado. Dá-se a entender que, dentro do país, um grampo só é realizado com autorização judicial. Eu sou um pouco cético sobre isto. Acho que o volume de grampos e invasões em computadores é tão grande que não há sistema judiciário no mundo que atenda a demanda com a celeridade que exige.

Nos Estados Unidos, pelo que se sabe hoje, não é necessária a autorização, o que torna o sistema norte-americano mais atraente para a comunidade de inteligência ocidental. Afinal, não há nada mais sedutor para um araponga do que obter informações privadas sem dar satisfação a quem quer que seja. É o auge do poder!

Possível barganha?

O repúdio da presidente Dilma Rousseff e do ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, sobre o caráter invasivo e arbitrário da NSA, também não deve causar surpresa.

Era necessário acalmar a opinião pública do país e deixar claro aos donos das grandes corporações brasileiras, apontados como possíveis alvos, que o governo brasileiro não está alinhado com a política ilegal norte-americana. Mas será que não está mesmo?

Ninguém esquece que já na ditadura, a CIA abastecia o Serviço Nacional de Informação. Em tempos de BRICS, talvez o Brasil tenha passado a ser mais alvo do que colaborador – pelo seu poderio econômico. Mas a lógica é que o Brasil seja alvo e colaborador ao mesmo tempo, como outros países europeus.

Caso realmente não tirava vantagem da máquina espiã dos EUA, não se pode duvidar que o Brasil agora queira barganhar estas informações da NSA. Com certeza haverá lobbies da comunidade de inteligência brasileira neste sentido. Afinal, para os arapongas brasileiros, já que não se pode evitar que os EUA usem o expediente, pode-se tentar tirar alguma vantagem disto também, como a UE já o faz.

Entretanto se compararmos o barulho feito por Dilma com os suspiros feitos por Merkel, a tese do “alinhamento brasileiro” balança bastante. Dilma gritou contra a NSA, enquanto Merkel calou.

Ambas sugeriram a criação de uma convenção internacional para a proteção de dados, mas Dilma, sem dúvida, esperneou muito. Tanto que dá para se desconfiar que o Brasil foi pego mesmo de surpresa. Tanto Dilma quanto Merkel, entretanto, sugeriram um protocolo no âmbito do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, adotado pela Assembleia Geral da ONU em 1966 para frear a espionagem.

Desconfiar de tudo

A questão é que não há escrúpulos nas comunidades de inteligência. O que prova isto é como elas agem em âmbito regional no Brasil. “Arapongas de elite” das superintendências das polícias federais, das polícias militares, das polícias civis e dos ministérios públicos compartilham informações.

Fazem trabalhos paralelos às investigações das suas próprias corporações em uma espécie de “grupo de elite”, geralmente capitaneado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. O trabalho não deixa de ser importante porque eles fazem o trabalho que agentes corruptos deixam inacabado ou nem começam.

As comunidades de inteligência são órgãos quase autônomos, paralelos e independentes. Como as informações são conseguidas não importa. O que importa é que elas existem e são restritas e compartimentadas.

O que difere o justo do sujo

Se isto é indigesto, péssimo é saber que agentes corruptos da Polícia brasileira têm o poder de coletar informações sigilosas dos cidadãos. São agentes que colocam o número do telefone de gente idônea em listas de quadrilhas investigadas para conseguir autorização judicial a fim de quebrar sigilos telefônicos de empresários, jornalistas e políticos entre outros.

Nesta história, sistemas de escuta telefônica são usados por policiais corruptos para serviços que não tem nada a ver com a investigação de crimes. No final, o sistema serve a dois fins: o justo e o sujo.

No caso do mega sistema dos EUA tudo indica que existe também a lógica “do justo e do sujo”. Aparentemente, o que se compartilha hoje é o que está no âmbito da guerra contra o terror e de crimes cibernéticos em geral. Onde UE e EUA têm o mesmo interesse.

O que não se compartilha é segredo de governo e de corporações transnacionais dos países alinhados porque eles mesmos não os solicitam e a divisão das informações não é natural.

Inocência europeia! Afinal, é preciso viver em um ambiente muito selvagem para desconfiar que o seu melhor amigo bisbilhote a sua conta bancária ou os banhos de espuma de sua esposa, certo? Não. Errado. Não há inocência. Inocente é pensar que alguma medida tomada no âmbito da ONU pode segurar a América. E nisto, o governo brasileiro ainda acredita.

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Obama-Fieber

O que já era impressão de analistas está comprovado por um estudo. A eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos fez mesmo a chamada relação transatlântica melhorar não somente em âmbito governamental. É o que destaca a edição digital deste final de semana (25.07) do semanário alemão Spiegel.

Uma pesquisa feita pelo Pew Research Center (PRC), de Washington, aponta que os alemães estão especialmente eufóricos com a nova política externa norte-americana, apesar de se manterem críticos com relação ao conflito no Afeganistão.

A pesquisa aconteceu entre maio e junho, ouvindo 26 mil pessoas em 24 países europeus. A matéria de Gregor Peter Schmitz, correspondente da revista Spiegel em Washington, destaca como “especialmente dramática” a mudança de postura dos alemães em relação aos Estados Unidos após os seis primeiros meses do governo Obama.

Não tem pra Merkel na Alemanha. O negócio é Obama.

Não tem pra Merkel na Alemanha. O negócio é Obama.

Obama é mais popular que Merkel na Alemanha

Conforme o texto, 64% dos entrevistados alemães têm uma posição positiva sobre os Estados Unidos. No ano passado, conforme a Spiegel, 31% dos alemães deram esta resposta quando o presidente ainda era George W Bush.

Cerca de 93% dos entrevistados na Alemanha disseram que confiam no atual presidente norte-americano. Obama só é tão bem-quisto assim no Quênia, país onde seu pai nasceu. A própria chanceler Angela Merkel não tem tamanha aprovação aqui na Alemanha. Fica nos 75%, o que também não é um índice desprezível.

Quase 93% dos alemães ouvidos pelo PRC acreditam que Obama é capaz de tomar as decisões corretas no cenário internacional. O índice já impressiona por si só, porém quando comparado ao de George W Bush, que na mesma pesquisa obteve 80 pontos a menos, ou seja, 13%, o quadro se torna contundente.

Europeus se mostram crédulos em relação ao presidente norte-americano

Guantânamo é o “calcanhar de Aquiles”

Conforme teria declarado o pesquisador do PRC, Andrew Kokut, à Spiegel, os entrevistados acreditam no potencial de Obama para “agir de forma multilateral, buscar o apoio internacional em caso de uso de violência, além de colocar em prática a idéia de retirar as tropas norte-americanas do Iraque e fechar Guantânamo “.

Também em outros países europeus como Inglaterra, França e Espanha, os cidadãos parecem mais simpático aos Estados Unidos. “Colabora para isso o interesse de Obama na retirada das tropas do Iraque e o fechamento de Guantânamo”, conforme a Spiegel.

Na Alemanha, 84% dos entrevistados aplaudiriam o fechamento da prisão de Guantânamo, conforme a pesquisa do PRC. Abaixo, um dos momentos mais marcantes da política internacional dos últimos anos. Barack Obama, há um ano, discursava em Berlim, em plena campanha eleitoral norte-americana. Quem está fora deste eixo da chamada “Aliança Atlântica” precisa refletir um pouco sobre este tema. O significado do gesto e a simbologia das palavras de Obama se dirigindo ao povo alemão não podem ser simplificados.

Senhor presidente, por favor!

A uma semana da necessária cúpula do G20 que discute um dos mais profundos problemas internacioanis atuais, velhas picuinhas voltam à tona e o mundo assiste atônito ao jogo de cenas que se avizinha.

A começar pelo nosso Excelentíssimo Senhor Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. “A crise foi criada por comportamentos irracionais de gente branca e de olhos azuis que, antes da crise, pareciam que sabiam tudo”. Infeliz? Sim. Não somente infeliz, mas desnecessário, vago e discriminatório. Ele não cansa…

Todos os chamados “players” na economia internacional têm a sua parcela de culpa e o Brasil, como país emergente, com peso econômico diferenciado em sua região, também tem o seu papel. Todos ouviram o tic-tac, mas ninguém agiu para evitar que a bomba relógio chegasse ao zero na contagem regressiva do sistema financeiro internacional. Ninguém regulou os mercados nem se preocupou com o que agora é óbvio e antes era mero discurso anti-capitalista de socialistas retrógrados. Quiseram apostar e deu no que deu.

Londres vai ter a atenção do planeta

Londres vai ter a atenção do planeta

Impotência global

A crise exportada pelos Estados Unidos revela de forma cruel que diversos chefes de governo não têm o mínimo controle sobre a economia de seus países. Na verdade, dependem de um sistema que está alheio às suas vontades. Quando a corda arrebenta, todo mundo é abalado e congela na impotência.

Quem não congela são os mais pobres. Esses queimam no inferno da realidade mais implacável. Miséria, fome, doenças e o desgosto de ver todo o jogo de cenas internacional cada vez mais ensaiado, cada vez mais infeliz.

Os africanos sofrem e vão sofrer ainda mais com a crise em função do aumento do preço dos combustíveis e consequente crise dos alimentos. Os latino-americanos vão ter o desemprego acentuado. A ajuda dos países ricos ao desenvolvimento destas nações, altamente discutível na sua estratégia diga-se de passagem, pode ser reduzida devido a canalização de fundos para outro setores que aqueçam a economia.

Show de Sarkozy, Jinbao e Putin

Aqui entra sempre as controversas ajudas finaceiras a bancos e montadoras em detrimento do social, mas é uma longa história. Aliás, será que alguém vai aproveitar esta bola picando para “brilhar” na cúpula? Dificilmente. Quem não quer uma montadora no seu país.

A China está em pânico por ser o maior credor dos Estados Unidos. Investiu na dívida pública norte-americana e agora chora com a desvalorização do dólar. Vai para o encontro aliada à Rússia a fim de quebrar o peso da moeda norte-americana como o lastro de referência mundial. É ou não é um prato cheio para Wen Jiabao e Putin aproveitarem os holofotes em suas eventuais manifestações? Porém, analistas dizem que a China vai devagar com o projeto porque depende de um dólar valorizado para não perder, morrendo com os papéis adquiridos da dívida norte-americana.

Ah, essas viúvas da Guerra Fria…

Chega de dólar, o negócio agora é apostar no Rublo

Chega de dólar, o negócio agora é apostar no Rublo

E o presidente francês Nicolas Sarkozy fará o mesmo de sempre ou apresentará algum número inédito? Como será a nova performance de “Sarkoshow”, o líder mais onipresente do planeta. A perspectiva é de que, aliado a lideranças emergentes, reivindique que os organismos financeiros internacionais tenham mais participação dos países do Sul, não somente dos ricos. Acho nobre, mas será realmente factível? Talvez a idéia francesa que passe seja a de criação de regras claras e punição no sistema financeiro internacional. Afinal, isso é uma reivindicação global.

Alguns têm esperança

Por mais que existam tantos holofotes e o cheiro do mofado estilo de lideranças desconectadas das necessidades globais atuais, não se pode anular a importância do evento. Claro que a cúpula será fundamental porque o momento é fundamental. Mesmo que ela fracasse terá o papel de apontar para que lado vai o diálogo internacional nos próximos anos. Porém, diante de questões emperradas como a Rodada de Doha, os monocordes resgates bilionários a bancos e montadoras e os contraditórios pacotes protecionistas lançados neste trimestre, não consigo esperar muito do encontro de Londres.

Existe uma chance de a reunião dar certo. Barack Obama já mostrou ser um homem sensato e de diálogo. Para mim, o vídeo histórico propondo diálogo com os líderes iranianos, um “recomeço”, é um sinal de que realmente existe alguém interessado em fazer algo diferente na Casa Branca. O presidente norte-americano fez a sua parte, cabe a Mahmoud Ahmadinejad ter a mesma grandeza. Se é que isso é possível, vide sua trajetória na política internacional. É possível que, neste clima de boa vontade norte-americana, o encontro ganhe em idéias concretas e haja menos espaço para choradeiras ideológicas sem sentido.

Crise afetou em cheio aos chineses

Crise afetou em cheio aos chineses

É possível que, com um líder norte-americano mais sensível, realmente se confirmem as expecativas do ministro do exterior britânico, David
Miliband, sobre o fim do unilateralismo. Ele espera nessa reunião a oportunidade histórica de “começar a refletir, discutir e de fazer face às grandes questões internacionais, colocando todos (os países) ao mesmo nível”.

Que eu morda a língua!!!

Eu prefiro ser cético. Pode ser que a urgência da crise faça eu morder a língua, mas, para mim, Londres vai assistir a mais um fiasco no diálogo internacional rumo ao desenvolvimento global. Ranços da antiga bipolaridade e egocentrismo e arrogância de ricos e emergentes podem impedir que o encontro sirva para alguma coisa. Convenhamos, nossos líderes têm sido muito mais capazes de nos envergonhar do que orgulhar.

Sabe como é, né? Muitos holofotes ligados… Mas presidente Lula da Silva, por favor, contenha-se. Ainda bem que o Chavez não vai. Menos um.

Vaja na íntegra a mensagem de Obama propondo um “recomeço” no Ano Novo Persa