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Penitências em escala industrial

Marcio Pessôa, de Madri

A visita do Papa ao Encontro Mundial da Juventude em Madri serviu para acentuar a divisão de um país sequelado. Segmentos da sociedade foram às ruas para protestar contra os gastos de dinheiro público no mega evento católico, exigindo um “Estado Laico”. Em resposta, a polícia não somente reprimiu manifestantes, mas também intimidou cidadãos e jornalistas nas ruas (veja vídeo abaixo). Só faltavam chamar o Bope para botar a brutalidade “na conta de Bento XVI”.

O que Madri assistiu nestes últimos dias foi mais uma expressão da indignação de uma sociedade exausta. A população grita e alerta o mundo que uma ditadura militar mal curada pode sim produzir aberrações políticas, como a pseudo-democracia que vigora na Espanha e reveza duas correntes políticas elitistas no poder, o PSOE (Partido Socialista Obrero Español) e o PP (Partido Popular).

Franco, diretamente, não tem nada a ver com isso. A ditadura durou 36 anos até a sua morte em 1975. Seu regime deixou feridas abertas, criou uma estrutura corporativa de extrema repressão e violência, porém cabia aos líderes seguintes promoverem as reformas para a Espanha ter a sociedade plural e democrática que merece, tratando enfim das “chagas franquistas”.

No estilo Pinochet

Lá se foram 36 anos e o espanhol, pressioando por uma situação econômica dramática, despertou enfurecido em maio de 2011. Cidadãos ocuparam as praças em todo o país exigindo “Democracia Real Ya!”, cansados da mesmice política refletida nas campanhas eleitorais. Poderia se pensar que em poucos meses o Movimento 15M iria arrefecer, mas continua realizando assembléias em bairros e seminários em zonas públicas.

Ao longo das semanas, a violência policial contra manifestações pacíficas se repetiu em Madri, Valência, Barcelona e outras regiões. Nesta história, o contexto europeu parece prejudicar a cicatrização das tais feridas franquistas porque a União Europeia (UE) blinda a pseudo-democracia espanhola, fazendo vistas grossas a repressão politica e se omitindo de sugerir reformas e moderação ao Estado-membro.

Cartaz convoca população para tomar as ruas

A ironia é que a UE e instituições irmãs ressonam o coro democrático ocidental, exigindo mudanças políticas estruturais em frágeis democracias e governos autoritários da América Latina, África, Ásia e Leste Europeu, sempre com relatórios fartos e contundentes. Nesta contestação popular ao “bipartidarismo”, durante as municipais de maio, partidos menores ganharam expressão. No País Basco, os separatistas confirmaram 55% dos votos com o Nacionalista Basco (EAJ-PNV) e a sigla de Esquerda BILDU.

O Papa é pobre?

O 15M preocupa as correntes mais conservadoras, que buscam desqualificar a mobilização em acampamentos e eventos, usando os rótulos clássicos do conservadorismo. É comum ouvir que se trata de um movimento sem sentido, uma concentração de “punks, hippies e drogados, que pretendem promover a anarquia no país”. Porém quem já esteve em alguma assembléia sabe que o perfil é completamente outro.

Jovens desempregados e idosos que sentiram o franquismo na pele participm das concentrações como se o movimento fosse a chance de soltar um grito travado há anos. O movimento se faz permanente com agenda e audiência politicamente maduras. Reformas políticas, habitação, saúde pública, transparência na admnistração, a mídia ideal, saídas para a crise econômica e desemprego são temas que fazem parte dos fóruns permanentes.

Cerca de 600 confessionários no Parque do Retiro em Madri

Cerca de 600 confessionários no Parque do Retiro em Madri

Voltando á Jornada Internacional da Juventude que tem próxima edição no Rio de Janeiro, para aproveitar a fé conservadora dos espanhóis e o fervor dos milhares de jovens que acorreram a Madri nestes últimos dias, os organizadores instalaram mais de 600 confessionários no Parque do Retiro. É um quadro que se eu não tivesse visto, não acreditaria. Madri teve a “oportunidade” de produzir absolvições em escala industrial para milhares de cidadãos pecadores do mundo.

Abaixo um vídeo do canal Intereconomia, uma das maiores aberrações da mídia ocidental. Nesta matéria, o repórter, sem qualquer fonte, discorre sobre os motivos do ínidice elevado de HIV no continente africano. O resultado é lamentável. A pérola começa no segundo 1’16. A propósito, em algumas cidades espanholas farmácias se negam a vender preservativos por convicções católicas.

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