Um tigre banguela conta a sua história

A grande procura do público por Banguela surpreende a mim e à Editora Kiron. Mais exemplares estão sendo impressos somente para atender a demanda inicial.

É claro que isto muito me honra. A notícia aumenta a minha expectativa de que o trabalho realmente atinja o seu objetivo: fomentar a discussão sobre as políticas de segurança pública no Brasil. Um setor sensível, que lida com a vida das pessoas, mas, muitas vezes, está à mercê de autoridades inaptas, ranço político-partidário, disputas de poder pessoal, vaidades e que carece de planejamento básico.

As políticas públicas de segurança devem ser concebidas e implementadas. Hoje, são preteridas por uma espécie de “feudalismo” incrustado na cultura da polícia brasileira – principalmente investigativa. O delegado é o rei e tem os seus homens de confiança. Quem não joga no seu time está fora.

Se o Brasil pretende desmilitarizar a Polícia deve resolver os problemas do braço estritamente civil da segurança pública. E a tarefa é bastante árdua, como a leitura atenta de Banguela pode demonstrar.

Trabalho solo

É claro que o tempo de produção de Banguela desafiou a minha paciência. Contei com momentos raros, quando vim para o Brasil, para fazer as checagens finais das informações a fim de que o livro tivesse a consistência jornalística que considero importante.

Muitos colegas da imprensa têm valorizado o fato de o livro ter recursos literários para contar a história, como pseudônimos e objetos inanimados “narradores”. Isto foi usado por pura necessidade. Foi a forma que encontrei de proteger as minhas fontes. Adotei o mesmo critério para todos os personagens do livro – autoridades, agentes e suspeitos – porque muitos me pediram completo anonimato.

A elaboração de Banguela foi um imenso prazer porque fazer reportagem livre é um imenso prazer para qualquer jornalista. Impressiona-me a recorrente resposta positiva das pessoas que tiveram acesso ao trabalho, mas não me surpreende.

Afinal, a oportunidade de fazer jornalismo na sua essência é um privilégio para os repórteres e para os leitores, que podem, assim, ter acesso a um texto menos viciado.

Não contei com qualquer apoio externo para a produção. A responsabilidade é minha. Todos os custos, todo o esforço foi meu. Trata-se de um trabalho solo.

O que eu espero

O lançamento de Banguela na Palavraria, em Porto Alegre, nesta terça-feira (14.01) é um momento realmente muito especial. É o fim de mais um ciclo na minha carreira, quando eu consigo finalmente dar retorno aqueles que me confidenciaram histórias na esperança de que mazelas sejam resolvidas.

Eu acompanhei de perto as investidas de setores da segurança pública contra a quadrilha de 2001 a 2005, quando trabalhei na crônica como repórter de rádio. Em 2006 comecei as apurações do livro. A bem da verdade, lá se vão 13 anos em cima desta questão, oscilando entre momentos de mais ou menos intensidade.

Espero muito que as novas gerações de policiais, jornalistas e gestores públicos tenham acesso a este texto e que ele sirva para fomentar um debate qualificado sobre as suas atividades. Se isto acontecer, terei certeza de que estes 13 anos de trabalho não foram em vão.

Uma boa leitura a todos.
Mais informações sobre o livro pelo http://www.banguela.net.

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Um país sequestrado

Marcio Pessôa, de Maputo.

Moçambique viveu uma semana de comoção com a morte do menino Ahmad Abudul Rachid, de 13 anos, durante um sequestro na cidade da Beira, a segunda maior do país. Após uma negociação confusa e um familiar ter informado à Polícia onde o resgate seria pago, o menino foi executado.

Algumas informações desencontradas indicam que um primeiro resgate foi pago para as pessoas erradas, o que teria deixado a situação ainda mais tensa. Desde o final de 2011, o número de sequestros no país chega a 40. O caso Ahmad Rachid foge do perfil dos sequestros em Moçambique pela morte do refém.

O rapto também ficou marcado não somente pelo amadorismo da quadrilha, mas também pela sonolência dos órgãos de segurança pública, que simplesmente não conseguem travar a sanha dos grupos criminosos – muitos dos quais auxiliados ou liderados por policiais.

O foco da política de segurança pública do país parece estar muito mais voltado a reprimir pontos de dissidência política ou de manifestações de contestação ao governo do que oferecer um serviço de qualidade para seus cidadãos.

A morte de Ahmad também marcou o cansaço do moçambicano em geral, condenado à rotina do medo. Os familiares de médios empresários não andam com tranquilidade nas ruas e o resto da população, que vê esse show de horrores na mídia, acaba assimilando o mesmo sentimento.

“Também tenho medo porque vai que estes gajos me confundem com alguém rico”, ironizava um amigo numa conversa informal na Associação dos Músicos, em Maputo.

Reação da sociedade

A onda de sequestros aliada à instabilidade política gerada pelo conflito da ala armada da RENAMO com o governo moçambicano da FRELIMO acaba criando um turbilhão de insegurança que tortura o cidadão comum, deixando um país inteiro refém.

É um imenso cativeiro. O cidadão é condenado ao espaço apertado dos chapas, tem seu choro reprimido e ignorado, sendo alimentado a pão e água diariamente. Na quinta-feira (31/10), milhares de pessoas foram às ruas de Maputo para reagir. Outras manifestações semelhantes ocorreram em capitais de províncias.

O protesto em Maputo foi liderado pela Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, mas teve a participação decisiva de associações religiosas, do Fórum Mulher e de associações de classe. A organização do ato foi tensa porque a administração da capital não queria autorizar a ocupação da área da estátua de Eduardo Mondlane, onde a manifestação pacífia começou.

Mesmo não-autorizada, a marcha parou a capital e se tornou uma demonstração histórica de força da sociedade civil.

Urgência

Nas redes sociais, na imprensa, os apelos pela paz indicam que a iniciativa reverberou e foi contundente. Também ficou claro que governantes e cidadãos não estão sintonizados. Por um lado o poder público se mostra cada vez mais belicista contra as vozes oposicionistas, por outro se faz de surdo aos apelos legítimos da população por paz e segurança. Ou seja, é eficiente quando lhe é politicamente conveniente.

A questão é que esta instabilidade toda afeta os negócios do país. A imprensa noticia que o grupo anglo-australiano Rio Tinto, que explora carvão na mina de Benga, em Tete – vizinho da brasileira Vale – já aconselhou as famílias de seus colaboradores estrangeiros a deixarem Moçambique em função da crise político-militar.

Embaixadas prepraram planos de retirada dos cidadãos estrangeiros em caso de piora no quadro do conflito – o que, no momento, parece pouco provável.

Confrontos tem sido registrados basicamente em Sofala, mas há tensão também em Nampula. No coração de cada moçambicano parece ressurgir as incertezas que marcaram este país durante 16 anos de matança entre irmãos.

Raposa felpuda

Não há dúvidas de que a ala guebuzista da FRELIMO perde no campo econômico com este conflito porque perde dinheiro a curto prazo e abala a certeza de continuidade do investimento estrangeiro, no qual o governo tem baseado a sua estratégia de desenvolvimento econômico – seja isso equivocado ou não.

Mas talvez, por outro lado, colha frutos positivos no campo político a médio prazo porque acaba garantindo sua permanência no poder por mais tempo, uma vez que a oposição política fica armada, cada vez mais inimiga das urnas e abala seu status de partido político.

A RENAMO perde mais do que a FRELIMO com este conflito. Guebuza sabe disto. Por isso o presidente optou por uma solução militar. Sabe que faz um governo contestado, que poderia causar algumas surpresas negativas para a FRELIMO nas próximas eleições.

“Bandidos armados”

Trazer aquela temida imagem dos “bandidos armados da RENAMO” à lembrança do moçambicano nesta hora parece bastante conveniente para o partido no poder reduzir a penetração da maior força de oposição na população.

Parece-me que a RENAMO também calcula mal este retorno ás armas porque partido político milita na rua, nos legislativos, nos fóruns comunitários, com as suas bases. Partido político não faz tocaia contra civis. Isto não é ação de partido político, isto é ação de grupo armado. Mesmo que a luta armada seja por justiça social, a RENAMO parece se deslocar no tempo em um momento que parecia munida de reivindicações legítimas. E o mais interessante: nas ruas o povo parecia entendê-las como legítimas.

Tenho notado a preocupação de dirigentes políticos de ambas as partes em dizer que não houve “declaração de guerra no país”. A minha pergunta é: desde quando uma guerra precisa ser necessariamente declarada verbalmente? Não existem as tais guerras não-declaradas?

Acima de tudo, iniciativas bélicas entre dois grupos de interesses opostos marcam o início de uma guerra. As contradições entre discursos e atitudes deixam nítido que existem divisões políticas em ambas as partes, lideranças desafiadas e grupos fora de controle. Ao cidadão moçambicano, resta apenas esperar pelo bom senso – aquela velha atitude racional e nobre que parece ausente nos momentos mais cruciais da história da humanidade.  

Antiga guerrilha anula acordo de paz em Moçambique

Marcio Pessôa, de Maputo

O clima é de bastante tensão em Moçambique após a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) anular o acordo de paz de Santo Egídio, que encerrou a sangrenta guerra civil no país. Trata-se da pior crise política desde o cessar-fogo, em 1992.

O anúncio da decisão foi feito pelo porta-voz da RENAMO, Fernando Mazanga, nesta segunda-feira (21/10), horas depois de o Exército de Moçambique tomar a base rebelde de Sathundjira, na província de Sofala, no Centro do país.

Mazanga disse que não houve baixas da RENAMO e acusou o partido no governo, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), e o presidente, Armando Guebuza, de quererem “assassinar (o líder da oposição) Afonso Dhlakama para subjugar os moçambicanos ao regime de partido único.”

Vale lembrar que Moçambique conta com alguns partidos de oposição, inclusive uma força emergente: o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), do líder Daviz Simango.

Negócios x Dhlakama

O líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, instalou-se, há mais de um ano, na área que era o antigo bastião da guerrilha durante o período de guerra civil.

Já na sexta-feira, quando almoçava na Baixa, em Maputo, observava a população que transitava pelas calçadas, parando em frente aos televisores para saber mais sobre a crise. Dhlakama enfatizava que não queria guerra porque, conforme suas palavras, “quem vai sofrer é o povo.”

No final de semana, no entanto, a imprensa registrava centenas de famílias deixando a região enquanto o Exército cercava a base militar rebelde. Refugiados levavam o pouco que tinham para se esconder no mato.

Com o início do cerco à Sathundjira, os moçambicanos pareciam pressentir que o cenário estava prestes a piorar. Nesta segunda-feira, cedinho, já estvam em frente aos jornaleiros para saber as manchetes dos periódicos, que relatavam a ação militar do governo.

Há algumas semanas, o porta-voz do presidente Armando Guebuza e o líder Afonso Dhlakama trocam acusações sobre as responsabilidades dos novos confrontos. Guebuza sabe que quanto mais tempo Dhlakama ameaçar a paz, pior será para os negócios do governo. Afinal, o capital estrangeiro não gosta de instabilidade e é necessário acabar com este foco nocivo ao business.

Movimento calculado

Presume-se, portanto, que o governo tomou a decisão de atacar porque acredita que pode aniquilar a resistência rapidamente. No entanto, com o rompimento do acordo de paz, a RENAMO diz que está disposta a tudo e assim fica difícil fazer um prognóstico sobre o que vai acontecer nos próximos dias.

Não se sabe ao certo o poder de fogo da RENAMO e o seu potencial de aglutinação. Desde o início do ano, várias unidades policiais foram invadidas por grupos não-identificados. Munição e armamento têm sido roubados.

Sem contar com efetivo e força bélica para enfrentar de igual para igual as forças do governo, há quem diga que é possível o retorno das sabotagens da pouca infra-estrutura existente no país. Nos últimos meses, pontes foram danificadas, a principal via de ligação entre o Norte e o Sul ameaçada, civis foram mortos e patrulhas militares foram atacadas.

Tais ações podem se tornar mais constantes.

A posição do moçambicano

Apesar de, pelo menos em Maputo, a população relutar em se dizer da oposição por medo de algum tipo de represália, nas “paragens dos chapas”, nas conversas de esquina, em frente aos mercados, o moçambicano confessa que Dhlakama tem razão. Todas as pessoas com quem tenho conversado nas ruas dizem que o acordo de paz deveria ter sido cumprido e que a FRELIMO lida muito mal com a questão há anos.

Durante vários meses, o governo da FRELIMO e a RENAMO não foram capazes de chegar a um acordo sobre as eleições, que devem acontecer em novembro. A RENAMO alega que a Lei Eleitoral favorece a FRELIMO e que a Comissão Nacional de Eleições (CNE) é ilegal por ainda não contar com representantes de todos os partidos.

A RENAMO não indicou seus representantes na CNE e não vai participar do pleito, abrindo caminho não somente à FRELIMO, mas também ao MDM (uma força de oposição que pode ocupar este vácuo deixado pela principal adversária da FRELIMO).

Entretanto, a discórdia entre as partes não se resume ás eleições. Pontos do acordo de paz de 1992 ainda não foram cumpridos pela FRELIMO e isto revolta setores mais belicistas da RENAMO. Um dos pontos fundamentais é o fato de militares identificados com a RENAMO não fazerem parte das Forças Armadas de Moçambique (FADM).

O não cumprimento desta parte do acordo fez com que os ex-combatentes da RENAMO convocassem Dhlakama para sair de sua confortável residência nas proximidades da Costa do Sol, em Maputo, e voltar para a Gorongosa, a fim de pressionar o governo a cumprir o acordo de paz.

A semana começa quente em Moçambique e agora parecem pairar incertezas quanto ao bom andamento das eleições autárquicas de novembro. Parece que a RENAMO enfraquece o seu status de partido político e retorna à velha roupagem de grupo armado. Seria isto mesmo um retrocesso?

Asas de anjo e esporas de galo

Marcio Pessôa, de Maputo.

A abertura da linha de crédito de 98 milhões de dólares para investimentos agrícolas no Zimbábue é uma medida audaciosa dos gestores da política de cooperação do governo brasileiro. Porém, assusta.

Há 34 anos no poder, o ditador zimbabueano, Robert Mugabe, faz parte do grupo de líderes que alguns analistas chamam de “Irmandade da África Austral”.

Um time fechado, que congrega personalidades e grupos políticos que lutaram contra o poder colonial e posteriormente acumularam fracassos como gestores públicos, sem revezar o poder com outras correntes.

O neoliberal Zimbábue era considerado, no início dos anos 1990, o “Celeiro da África”, abastecendo a vizinhança com uma agricultura pujante e orgulhosa. O setor primário, dominado por uma elite de agricultores brancos, era a força motriz da economia do país.

Sem querer criar instabilidade em um setor que funcionou muito bem durante 20 anos, Mugabe resistiu à pressão da ala radical de seu partido, a União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu-PF), que queria a distribuição total das terras para os negros desde 1980.

No entanto, apesar de manter a estabilidade no setor primário, a violenta, viciada, clientelista, pesada e corrupta máquina estatal zimbabueana, ao longo dos anos 1990, fez a crise econômica global ficar insustentável no país e o cenário político, desfavorável ao regime.

O rabo de arraia de Mugabe

Em 2000, a Zanu-PF fraudou as eleições legislativas e mudou o regime. Mugabe adotou um populismo revanchista e um autoritarismo sanguinário. Divorciou-se do neoliberalismo ocidental e das instituições de Bretton Woods. Colocou o africanismo e a negritude na ponta da língua, reprimiu as forças de oposição e encabeçou um governo mobilizado para uma espécie de “guerra civil” contra o neocolonialismo branco.

Finalmente, iniciava-se o refluxo do Apartheid que vigorou na antiga Rodésia do Sul. O regime convocou os ex-combatentes para uma suposta “relibertação”. Recrutou um exército informal de 40 mil homens com paus e pedras, prontos para espalhar o terror nas zonas rurais. A Zanu-PF se preparava para pagar a promessa de 20 anos – dava terras aos negros, expropriando zimbabueanos brancos sem agentes do Estado, na informalidade. Eram jagunços mergulhados em um revival fajuto da guerra de libertação.

Mugabe sabia que era o melhor momento para recuperar a massa. Sabia que nem mesmo o know-how dos agricultores brancos iria salvar a economia do país. Não tinha nada a perder. Todos que não eram pró-Zanu-PF, sejam negros ou brancos, eram inimigos e “trabalhavam para os brancos neocolonialistas ocidentais”.

No meio da crise política, com perseguições a ativistas da sociedade civil e integrantes de partidos de oposição, execuções sumárias e violência na desapropriação de terras, a economia agonizou. No verão de 2008, a inflação chegou a 231.000.000% – a maior do século. O Banco Central emitiu a nota de 1 trilhão de dólares zimbabueanos. Era o fundo do poço.

O pouco que se tinha nas prateleiras dos supermercados vinha da solidariedade da tal “Irmandade da África Austral”. A população tornou-se miserável. Os setores produtivos sucatearam. Quase todos os trabalhadores caíram na informalidade. Com o isolamento e os embargos ocidentais, o MDC do ex-líder sindical Morgan Tsvangirai ganhou mais força.

A tática ocidental para tirar Mugabe parecia começar a dar certo, mas o povo sofria como nunca.

Abordagem fracassada

Após sucessivos pleitos fraudulentos, vieram as presidenciais de 2008. Mugabe perdeu o primeiro turno e convocou os ex-combatentes para uma nova campanha de violência nas zonas rurais. Dessa vez, nada a ver com diferença racial. Agora, a pauta era aniquilar as “diferenças políticas”. Tsvangirai desistiu do pleito, alegando que seus militantes estavam sendo massacrados.

Centenas foram assassinados, torturados e deslocados pelas milícias juvenis da Zanu-PF e pelos ex-combatentes. A crise foi mediada pelos líderes africanos da “irmandade”. A solução pífia para o impasse foi a partilha de poder, que garantiu as forças de segurança e as minas de diamantes para a Zanu-PF e as pastas de revés político como Economia, Saúde e Educação para o MDC.

Tsvangirai perdeu o respeito de alguns aliados por aceitar uma partilha de poder mal feita, com medo de sair com as mãos vazias de um conturbado momento político, quando vencera as eleições. Durante o governo conjugado da Zanu-PF e do MDC, questões graves ligadas aos direitos humanos, à agricultura, à saúde e à educação não foram resolvidas – muitas vezes com soluções barradas espertamente pela Zanu-PF.

O MDC no governo não representou avanço algum e a Zanu-PF soube faturar politicamente com isto. Era mais uma vitória de Mugabe e da tal “irmandade”. Nas eleições de julho de 2013, o MDC chorou sozinho. Mugabe fraudou o pleito, mas ficou provado que ele ganharia mesmo se não fraudasse.

Ficou claro que a agenda ocidental para o Zimbábue se esgotou.

As “boas intenções”

É nesse jogo extremamente delicado que o Brasil se mete com mãos angelicais e cheias de boa vontade. Claro que ninguém é tolo de pensar que tudo isto é “bondade” do governo brasileiro.

O fato é que Dilma se aproxima de Mugabe para financiar projetos agrícolas no Zimbábue com dinheiro do contribuinte brasileiro. Vale lembrar que atrás das asas angelicais de Dilma, quem tem rido à toa nas incursões do Brasil na África com recursos do BNDES são os mega-empresários brasileiros – galos de esporas afiadas, que cantam à vontade em terreiro alheio com dinheiro alheio.

Eu acredito que a questão tem dois pontos sensíveis de partida.

Primeiro: é, sim, hora de mudar a abordagem sobre a questão zimbabueana. A transição democrática do país não passa por mais sofrimento do povo, mas por paciência e exaustiva negociação inteligente. É preciso dar crédito, mas a Zanu-PF precisa ceder e abrir o Estado para a sociedade, criando projetos sérios de exploração racional das riquezas do país em favor da população. Já não se pode mais encarar o governo do Zimbábue como se fosse somente personificado em Mugabe – um ditador de 89 anos.

A Zanu-PF tem dissidências e é plausível pensar que seu principal líder talvez não cumpra o mandato pela idade avançada. Assim, é possível aproveitar as alas menos radicais do partido para inserir o Zimbábue, a longo prazo, novamente, no cenário político internacional.

A abordagem norte-americana e europeia a favor do inoperante MDC ficou completamente sem sentido. A população não merece sofrer mais com embargos econômicos para a criação de possíveis cenários favoráveis a uma oposição confusa e acéfala.

O Brasil poderia ser mais criativo condicionando um pouco mais esta ajuda toda. Claro que não é necessário reproduzir a estratégia ocidental, que exigia praticamente a renúncia de uma estrutura partidária que não iria sair do poder, criando apenas um impasse desconfortável. Com a queda do MDC e a senilidade de Mugabe, creio que há um cenário novo e um espaço para novas ideias de atores nacionais e internacionais.

Legitimando o revanchismo

Segundo: concordo que o governo brasileiro deva cooperar cuidadosamente com o Zimbábue. No entanto, é preciso ficar alerta porque é muito fácil os recursos liberados pelo BNDES irem diretamente para o ralo da corrupção do país.

Mais fácil ainda é Dilma sujar as mãos em um conflito que não tem nada a ver com o Brasil. Não se pode esquecer que o programa zimbabueano de redistribuição de terras é ilegal – de acordo com a própria Corte Suprema do Zimbábue em 2001. É um ato de puro populismo e revanchismo racista, fruto de um regime que estava em desespero no início dos anos 2000.

É necessário acompanhar como e onde estes recursos serão aplicados. O Brasil não pode legitimar o programa racista de expropriação de terras de Mugabe e está muito próximo de fazê-lo.

Por outro lado, a bandeira da produção de alimentos em um país em crise alimentar é legítima e precisa ser considerada. Afinal, os agricultores negros que receberam estas terras precisam produzir e, independentemente dos conflitos internos, diante da urgência da miséria zimbabueana, esta terra não pode ficar ociosa – alguém precisava dar crédito e a mudança de abordagem sobre a crise zimbabueana passa por atitudes externas como esta.

É um dilema delicado. Uma questão difícil de entrar sem se sujar. Estamos diante de mais um tema sensível sobre a influência do Brasil na África que não terá a merecida discussão na sociedade brasileira – um grupo gigantesco de contribuintes que financiará tudo isto através do BNDES.

Desejo a todos um bom Globo Repórter nesta sexta-feira!

Porque o da semana passada, meus amigos, foi uma fraude. Uma trucagem de TV bem feita. Cinematográfico. Venderam Moçambique para turistas brasileiros em condições de pagar boa hospedagem e passagem e desprezaram a “notícia”, o jornalismo.

Parabéns! Mais uma vez, fizera-me vir ao meu blog para ser crítico da crítica, um papel que eu odeio. Embora eu ainda não acredite que exista conteúdo crítico nessa matéria. Fizeram-me vir para o meu blog usar pontos de exclamação, coisa que eu não faço!

Aos colegas jornalistas, principalmente aos editores do Globo Repórter, uma perguntinha simples: como uma equipe de reportagem consegue ir para o meio da matéria e não enxergá-la? Como ir para o olho do furacão e não sentir o vento? Seria insensibilidade, falta de talento, carência de aptidão, censura ou desinteresse de mostrar ao brasileiro a realidade do Brasil em Moçambique?

Como um time de jornalistas brasileiros muito bem custeados e preparados consegue ter o privilégio de ir para um país que vive seus dias mais críticos de relacionamento com o “Brasil” e sequer toca neste assunto?

A “Marca Brasil”

É claro que me refiro aos intelectuais moçambicanos e à sociedade civil do país quando falo em “momento de relacionamento crítico”. O Brasil sempre esteve associado à alegria para os africanos. Eu fui para Botsuana e vi “bushmen” (aqueles de “Os Deuses devem estar loucos”) com camisetas da seleção brasileira. No meio da savana, eles conheciam o Brasil e estavam felizes por verem um brasileiro – e eu, honrado.

Na África, até poucos anos, você falar que era brasileiro era motivo para se desfrutar de uma boa conversa sobre cultura, futebol, partilhar boa comida e música. Estive na África do Sul, no Zimbábue, na Namíbia, em Moçambique, na Zâmbia, na Guiné-Bissau e no Marrocos. Nestes lugares, dizer-se brasileiro abre portas e corações.

Mas estes dias parecem estar acabando. A coisa mudou um pouquinho nos últimos tempos. Ganhamos em dinheiro e perdemos em simpatia. Aliás, quem ganhou em dinheiro mesmo?

Justamente em Moçambique, para onde os jornalistas globais foram, ativistas e intelectuais, que antes concentravam suas críticas na política externa e nos mega-empreendimentos ocidentais, agora incluem nos seus discursos o Brasil num tom de surpresa e decepção. Vi isso no Zimbábue quando apelavam para que os negócios com diamantes beneficiassem o povo e mostravam medo dos interesses chineses e brasileiros no país.

Cidadãos moçambicanos bem informados, acadêmicos, técnicos de organizações não-governamentais estão se ocupando dia e noite em discutir o que o governo brasileiro e as empresas brasileiras estão fazendo no seu país em parceria com o “seu” governo. E digo, o que eles têm a dizer deveria ser ouvido por todo o brasileiro. O Globo Repórter poderia ter feito este serviço.

Globo Turismo

Mas o Globo Repórter se travestiu de “Globo Turismo”. A edição do dia 3 de Agosto foi um filme lindo, mas surreal. Levou ao brasileiro imagens do arquipélago de Bazaruto, muito bem recomendado para “casais em lua de mel”, da cidade de Maputo, de Chimoio, da cultura e da gente bonita do país. Explorou o esplendoroso Parque da Gorongosa com sua fauna rica, elefantes, antílopes, leões… Conseguiu chegar a um mirante na Gorongosa, que foi destruído na guerra civil e aí perdeu a notícia.

Aquela mesma guerra civil está em pleno período de Déjà vu ignorado pelo “Globo Turismo”. Talvez por sorte, ou azar, a reportagem não se encontrou com combatentes da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), que, neste momento, estão concentrados justamente na região da Gorongosa, e têm, nos últimos meses, cometido atentados para intimidar o governo.

Civis inocentes têm morrido neste Déjà vu. Embora, sem confirmação, a RENAMO está entre os suspeitos destas mortes.

A RENAMO é originariamente um grupo armado que virou partido e, agora, ameaça voltar às armas para colocar em cheque o eterno governo central Moçambicano da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Tem invadido arsenais e postos de polícia para se armar contra um grupo político que está há décadas no poder e se apropriou do país, dividindo lucros e riquezas com multinacionais.

O Globo Repórter em “parceria com a afiliada paranaense da Rede Globo” se negou a ir a fundo no que vincula o Brasil com Moçambique nos últimos anos: esta imensa riqueza natural que é inacessível à população e é explorada pelo governo moçambicano e gigantes corporações estrangeiras, muitas delas brasileiras.

Cooperação capenga

Como uma equipe de reportagem brasileira, com público-alvo brasileiro, vai para um território cheio de matérias de interesse dos brasileiros e simplesmente ignora a notícia, ignora a história?

Pelo jeito, a maior empresa de comunicação da América do Sul não quer mostrar, mas você pode ver. Vá para o Youtube, busque no Google… Você quer ficar bem informado sobre o Moçambique que interessa para um brasileiro com voto na mão? Procure saber sobre os “investimentos brasileiros” no país e suas várias questões em aberto.

Tente se informar como o governo brasileiro facilita tudo isto. Como o Governo Lula vendeu as empresas brasileiras para a África, usando “os nossos laços étnicos e culturais” como discurso. Aliando-se a corporações gigantes do Brasil e a elites corruptas e cruéis africanas.

Descubra Moçambique da Rede Record, que azucrina a vida dos africanos com a violência policial paulista. A Record que vende a enganação religiosa para um país com 50% de analfabetos. Veja um país que admira a cultura brasileira, mas está prestes a se decepcionar com esta marca alegre e viva, que era a “Marca Brasil”. Uma população africana, com suas próprias mazelas, sendo obrigada a engolir pelos canais abertos o pior do “irmão latino-americano”.

Política externa arrogante

Lance os olhos em um projeto da Vale na região de Moatize, onde está em ampla ascensão a segunda maior mina de carvão mineral do mundo. Um projeto que ainda leva dor a uma comunidade que foi enganada por esta multinacional brasileira.

Gente que tem como tradição enterrar o cordão umbilical dos bebês como símbolo da ligação com a terra e caiu no canto da sereia, abandonando suas casas para “liberar” a área para a empresa. Agora, querem, pelo menos, ter o mínimo do que a gigante brasileira lhes prometeu. E a luta é dura! Nenhum jornalista moçambicano consegue ouvir a Vale. Ela só fala para veículos brasileiros. Nem este privilégio o “Globo Turismo” aproveitou.

Queira saber um pouco mais sobre o Prosavana e suas dúvidas. Um programa de cooperação nebuloso que não se comunica com o seu público-alvo, enchendo 4 milhões de pessoas de dúvidas quanto ao seu futuro. Um programa de cooperação que é mal discutido em Moçambique e de pouquíssimas matérias (todas elas pouco críticas) na imprensa brasileira.

Diante de tudo isto, como jornalista, considero um escândalo o momento que o “Globo Turismo” começa a abordar o programa de cooperação brasileiro na fronteira com o Zimbábue e sequer fala dos outros programas. Moçambique é talvez o principal alvo da política de cooperação brasileira na África. Uma política que tem muitos pontos frágeis e mil questões em aberto.

Dá pra fazer muita matéria interessante sobre Moçambique para o brasileiro com voto na mão. Mas o “Globo Turismo” fez turismo e um programete para consumidores. Então, à uma das emissoras de TV mais poderosas do mundo, uma sugestão: faça uma segunda matéria. Quem sabe faça algo mais jornalístico? Ou, por favor, substituam o nome deste programa de sexta-feira à noite. O que eu vi pelo youtube, nesta semana, não é legítimo para ser chamado de “Repórter”.