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O conto (12.07.2010)

Chegando de Bonn após fazer o comentário do jogo final da Copa do Mundo para a Deutsche Welle, às 5h da manhã, depois de mais uma viagem de 3 horas e meia de trem até Osnabrück, cheio de sono, ilumino o meu coração ao abrir a caixa de correspondência e ver uma carta da embaixada zimbabueana em Berlim com meu passaporte e o visto de entrada no Zimbábue com validade até 07 de janeiro de 2011.

No dia seguinte, chegaria de Porto Alegre o meu cartão com registro da minha vacinação contra febre amarela feita em 2003 na ocasião da minha viagem para Caracas em função de um prêmio de jornalismo. O cartão tem validade até 2013.

A semana de viagem para Harare não poderia começar melhor. Havia consultado um médico na semana anterior que me receitou comprimidos contra malária cujo efeitos colaterais eram um pouco menos devastadores para o sistema nervoso central. Seria necessário ingeri-los somente dois dias antes de ir para uma região de alta incidência de malária e adotar a estratégia de usar sistematicamente repelente enquanto estivesse na capital do país.

Cadeira que trabalhei na DW, deixei meu chimarrão na Alemanha.

Claro que a burocracia para uma viagem dessas ocupou todo o meu tempo durante a semana. Não terminei nem mesmo trabalhos acadêmicos que, é verdade, têm prazo para 31 de setembro, mas pretendia concluí-los o mais rápido possível por não saber como é a Internet e por não confiar que seria tão fácil me concentrar em tarefas pendentes do mestrado com tanta coisa nova para absorver.

Conseguir meu visto não foi tão simples como o meu primeiro contato com a embaixada zimbabueana me fez pensar que seria. Primeiro lugar, fui extremamente bem tratado pelo funcionário da embaixada responsável pelos vistos, Mr. Robert Mabulala, o que já é um bocado atípico. O sujeito fez uma festa quando descobriu que eu sou brasileiro e disse que precisaria de um formulário preenchido com informações básicas a meu respeito e com a escolha do tipo de visto que gostaria. Bom, evidentemente omiti que era jornalista com medo de não conseguir o visto por uma bobagem. Afinal de contas, vou fazer uma pesquisa de campo não registros jornalísticas. Robert me disse que, uma vez com o formulário em suas mãos e as taxas pagas, o visto demoraria até sete dias úteis para chegar às minhas mãos.

Muito bem, creio que foram quase quatro semanas para eu receber o visto. Harare não aceitou me dar o tipo de visto que solicitei e paguei (quase 90 euros). Havia pedido um visto de múltiplas entradas durante 3 meses no país porque, apesar da minha situação financeira nada confortável, tinha a esperança de ir para Moçambique visitar colegas jornalistas e “um terceiro território a minha escolha”. Porém, Harare bateu o pé querendo me dar apenas um visto de dupla entrada no país no valor de 60 euros. Ainda pediram para os integrantes da organização que vai me receber, a Crisis in Zimbabwe Coalition (CZC), relatarem oficialmente o que irei fazer no país.

Após uma semana de negociações, acabei ficando com o visto de 60 euros tendo pago por um de 90. Não chorei pelo prejuízo já que sei para onde estou indo e este pode ser o primeiro de vários pequenos problemas a serem enfrentados nesta empreitada.

Esqueça que é jornalista (15.07.2010)

Obert Odhzi é um homem calmo, de fala mansa. Trata-se de um bacharel em direito zimbabueano com pós-graduação em relações internacionais na África do Sul e meu colega no mestrado em Governança Democrática e Sociedade Civil em Onsabrueck, Alemanha. Não existe como tirá-lo do sério, talvez pela sua flagrante assiduidade religiosa. Entre os alertas que Obert me deu a respeito do meu período em sua terra natal estão frases do tipo: “cuidado com o interior do país, é terra de ninguém. Não beba água em qualquer lugar devido à cólera, não coma em qualquer lugar porque os alimentos são geralmente mal acondicionados, não pague nada para ninguém, não dê confiança para desconhecidos porque podem estar coletando informações sobre você e jamais, eu repito, jamais diga que você é um jornalista porque não tem autorização para exercer sua profissão por lá. Esqueça que é jornalista.”

Se eu fosse um pintor de parede em um estágio técnico qualquer, o quadro seria menos ameaçador. Porém, sou um jornalista de ofício com matérias feitas sobre a política zimbabueana sob o ponto de vista da imprensa ocidental. Acentuava-se a incerteza sobre o que poderia acontecer ao chegar à migração com computador, gravador, máquina fotográfica e livros sobre democracia e políticas públicas. Claro, posso ser um estudante indo fazer uma pesquisa de campo acadêmica, mas ainda sou um jornalista. Se tiverem esta informação e me virem entrando com gravador e câmera fotográfica, vou ter que me explicar. Aí, até provar que mula não é cavalo já estarei na prisão ou no próximo vôo de volta à Europa. Claro que prefiro a segunda opção, afinal ser prisioneiro político no Zimbábue deve ser algo bem desconfortável. Mesmo após ser tranquilizado pelo diretor da CZC, McDonald Lewanika, que disse que não iria acontecer nada, fiquei ansioso para ver logo no que está história iria dar.

Deixei Taku em Osnabrueck e Xuxu no portão de embarque para o Timor Leste

A noiva de Obert, Ruvimbo Natalie Mavhiki, estuda Ciências Políticas na Universidade de Bremen. Tive a oportuniadade de conhecê-la em um “churrasco almeão” a céu aberto (o famoso grill) realizado no início do verão europeu de 2010, na ocasião do aniversário de uma colega caraquenha – Esther Maria.

Ruvimbo significa “esperança” em shona, nomes da língua local e da etnia predominante no país. É uma moça de sorriso franco e fascinante. Obert arranjou para que nos conhecêssemos e nesta oportunidade surgiu o convite para que eu ficasse na casa de seu pai, Mr. Clifford Mavhiki, durante o perído que estivesse em Harare. Conversamos e acertamos o preço. Deveria pagar 150 dólares por mês pela estadia. “Se você gosta de cerveja, vai adorar o meu pai”. Bom, interessante referência, mas eu diria que não seria a melhor caracaterística que um abstêmio espera encontrar em um anfitrião.

Sim, por acaso, nunca fui tão abstêmio quanto hoje. Ingressei desde o dia 19 de Maio em um onda saúde total. Separando até uma hora e meia do meu dia para atividades físicas, perdendo, em quase dois meses, 10 Kg. Reduzindo quase que 100% a ingestão de bebida alcoólica, uma atitude considerada corajosa quando se é estrangeiro e se vive na Alemanha, onde a cerveja espetacular e o inverno um tanto depressivo para um latino-americano acabam sendo um convite à fuga da realidade, por mais efêmera que seja. Acredite ou não, estava bebendo apenas vinho em casamento.

Pois bem, chegou a semana da viagem e o último encontro com Obert e Ruvimbo foi bem especial. O casal me indicou lugares para conhecer e recomendaram fortemente as montanhas de Mutare, local também famoso pelas minas de diamante. Deram-me uma série de telefones de amigos de Obert e familiares de Ruvimbo e o de uma advogada chamada Sharon. Para aprender o shona, indicaram-me a Avondale Primary School. Em troca desta imensa generosidade, resolvi levar uma camisa azul da seleção brasileira para Mr. Mavhiki e um conjunto de cremes para a pele comprados na Body Shop para Mrs Elizabeth Musonka, a mãe de Ruvimbo. “Ela é carinhosa e adora mimar a todos, você vai gostar muito dela. Tem um coração gigante”, disse a noiva de Obert, na ocasião do grill.

Eis uma das últimas grandes festas etílicas que fiz com colegas do mestrado. Na foto estão os amigos Lisa e Frederik. Detalhe para a camisa do Werder que troquei pela minha do Grêmio. Não me arrependi, mas deu um aperto no coração.

“But, Ruvimbo, you know, what should I do to help Mr. Mavhiki at home? For example, I will have a bed from him and should I buy something to eat by myself or we’ll eat the same food together. What do I need to do?”
“You don´t need to take care about that. He’s a nice guy that likes to talk and drink a lot”.
“But, you know, I don’t want to disturb. So, which would be my rights there”?
“Don’t worry, Marcio. You don’t even have to pay”.

No dia da viagem liguei para Mr. Mavhiki. Ele foi bastante receptivo. Perguntou-me quando chegava, quis saber a respeito do meu vôo porque gostaria de me receber já no aerporto com uma placa com meu nome. “Marcio, do you like beer?” Eu não pensei duas vezes para responder. “Ofcourse, I do! By the way, I’m very curious about the Zimbabwean beer is”. “That’s very good!!!”, respondeu Mavhiki aos soluços de um sorriso rasgado.

Um terço do conteúdo da minha mala eram presentes de Ruvimbo para a família. Tirei muita coisa do que iria levar. Coisas que não iriam me dar prejuízo algum se ficassem de fora da empreitada. Tudo isso para satisfazer o desejo de Ruvimbo e retribuir o imenso favor de me oferecer a sua rede de relacionamentos para que eu não fique sozinho em seu país.

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Copa 2010: A Copa Sudaca e o placebo futebolístico

Sudaca é um termo perjorativo, racista. É como os espanhóis se referem a todos os sul-americanos. Para os europeus, é uma surpresa Uruguai, Paraguai e Chile, por exemplo, apresentarem bom futebol neste Mundial. Como acompanham mais enfrentamentos das seleções africanas do que as competições sul-americanas, os europeus sofrem dessas surpresas e défcits de informação por não darem atenção às eliminatórias sudacas.

Porém, para quem vive as eliminatórias da América do Sul, não há surpresa no futebol apresentado pelo Paraguai, por exemplo. Aliás, até fiquei surpreso porque, mesmo sem Cabañas, o ataque paraguaio mantém nível altíssimo, privilegiado pelo esquema audacioso de Gerardo Martino, que gosta de três atacantes de oficio em campo. O Paraguai vence com naturalidade e supremacia.

Na copa mais sudaca dos últimos tempos, encanta-me o futebol argentino, objetivo – que mistura técnica e luta na busca insistente pelo gol. O Chile tem resultado com adversários um pouco mais modestos. Porém suas atuações o credenciam a tirar, sem surpresas, a favorita da Copa – Espanha (Ah, coño, sudacas en el camino!)

Aos trancos e barrancos

O Uruguai é pura concentração e raça. Sabe que não tem o melhor time do mundo e, por isso, seus jogadores têm atenção para errar o mínimo. Forlan assumiu finalmente protagonismo que sempre se esperou dele na seleção. Aliás, o mesmo acontece com Messi na Argentina. Interessante, que os dois “camisa 10“ resolveram mostrar isso no Mundial.

E o Brasil? Erra passes fáceis; cede espaços para o adversário em um sistema defensivo privilegiado por Dunga, mas deficiente; promove o isolamento de Luís Fabiano que é facilmente dominado pela defesa adversária, enfim, se o Brasil continuar dormindo em campo, não passará das oitavas. E lamento dizer isso, mas boa parte dessa sonolência se deve ao futebol “70%” de Kaká.

Comentei para a Deutsche Welle a partida entre Brasil e Costa do Marfim neste domingo (20.06) pela segunda rodada do grupo G da Copa do Mundo. Eu confesso que fiquei espantado com o efeito do escore na crônica esportiva, principalmente brasileira. Tudo bem que o produto seleção brasileira garante os rendimentos da empresa para o resto do ano, mas não dá pra exagerar.

A ausência de Kaká pode ser melhor

Pareceu-me evidente, no jogo contra a Coréia e nos 45 minutos iniciais contra a Costa do Marfim, a falta de velocidade, movimentação e precisão de passes da seleção. Foi um time sonolento, sem explosão, desconcentrado no meio-campo, facilmente envolvido pela marcação adversária. Pareceu não saber agredir e esperar um adversario, que, covarde, não vai sair. Aí, não há jogo. No segundo tempo, o Brasil foi favorecido porque a Costa do Mafim teve que sair e expôs sua frágil defesa.

Contra Portugal, Dunga conseguirá provar porque não convocou Ganso, por exemplo. Talvez o substituto de Kaká dê movimentação e vivacidade ao meio-campo. Kaká é indiscutivelmente o melhor jogador do elenco, mas precisa estar inteiro. Do contrário, o efeito dele em campo é o mesmo de Ronaldinho – um placebo futebolístico.

Com este futebol, um confronto com qualquer outro sudaca é fatal para o Brasil. Em um eventual enfrentamento, quem optar por propor o jogo, fica perigoso para o Brasil. Argentina e Paraguai, por exemplo, podem propor o jogo contra o Brasil porque têm estrutura no setor defensivo. O Paraguai fez isso em Assunção em 2008. Ganhou do Brasil por 2 gols com naturalidade. Pegar o Paraguai já seria complicado. Imagine a Argentina nesta fase boa?

Abaixo um dos momentos mais tristes da seleção brasileira na África do Sul. Diante da perda de elegância, não há comentários. “Era Dunga” dentro das quatro linhas, mas, hoje, tornou-se um Zangado nas coletivas e sua seleção, Soneca diante dos advesrários da copa. Está bem, o Maradona – um Dengoso com seus jogadores.

Copa 2010: Está em boas mãos

Eu vejo uma contradição em um critério, inclusive dito pelo próprio comandante Dunga: “seleção é o melhor momento de cada jogador”. Porém, acho que esta contradição ficou pequena diante da justificativa gigante dada por Dunga para escolher os jogadores que irão para a África do Sul.

Pelo menos quatro convocados não estão no seu melhor momento. Grafite, Júlio Batista, Felipe Melo e Ramires. Além disso, mostrando convicção, Dunga polemizou com as ausências dos chamados “meninos da vila”, de Ronaldinho, de Adriano e do goleiro Victor (duas vezes melhor goleiro do Brasil).

O comandante da seleção não respeitou o critério “melhor momento” porque priorizou em alguns casos o critério “comprometimento”. Essa justificativa me dá a certeza de que a equipe vai jogar a Copa do Mundo para ganhar realmente. Vai ser um time competitivo com quem quer que seja e, acima de tudo, não vai envergonhar o Brasil.

Palavra-chave

Comprometimento é chave para o sucesso de qualquer equipe de trabalho em qualquer setor e é um componente importante para o time de Dunga. É o algo mais. Não basta ter nome, tradição e ter os melhores. É preciso ter entrega para qualquer desafio. Todos os convocados já haviam sido chamados anteriormente e mostraram comprometimento, de acordo com Dunga.

Nas seleções mais displicentes brasileiras, aí coloco a que passou pela Alemanha em 2006, o que faltou foi justamente isso, comprometimento com a trajetória do Brasil. Todos estavam comprometidos com a sua imagem, com seus euros e com o samba. Achavam que iriam ganhar no nome, na bela imagem do trabalho de 2002, na alegria ou na magia.

O resultado foi vergonhoso. A equipe até tinha vários jogadores-chave, Ronaldinho, Fenômeno, Roberto Carlos, Robinho, Kaká. Porém o foco estava errado. Era espetáculo e samba, como em 1982. Com a ressalva de que em 1982, o time brasileiro não envergonhou o Brasil. Tinha pouca arrogância e muito caráter.

Difícil de ser batido

Eu tenho a tese de que a seleção brasileira tem tudo para ganhar todos mundiais se tiver disciplina e comprometimento. Se tiver pelo menos isso, vai ganhar como em 1994, com um futebol feinho, mas competitivo. Talvez dependendo de um gênio para colocar a bola para dentro em momentos cruciais.

Se tiver disciplina, comprometimento e talento em diversas posições, vai dar espetáculo. Porém, um espetáculo vencedor.

O problema nesta edição de 2010, é que não surgiram gênios nestes últimos três anos para justificar uma convocação criteriosa. Foram convocados grandes jogadores, com perfil de extrema consciência tática. Há sim talento ofensivo com Kaká e Robinho e faro de gol com Nilmar e Luís Fabiano. Isso pode suprir a carência do “gênio”.

Neutralizar o samba em excesso

Note que a religiosidade de Kaká e o profissionalismo de Nilmar e Fabiano podem sim neutralizar a molecagem às vezes displicente de Robinho. Mais um ponto para Dunga.

Então, conte comigo, a seleção tem disciplina. O treinador tem comando pela sua coerência principalmente durante a convocação. O time tem jogadores com perfil vencedor com a seleção – campeão das copas América e Confederações. E a equipe é inegavelmente competitiva.

Dunga foi coerente e lógico. Porém, apenas em um fator é bastante criticável. Ele aposta que o comprometimento pode recuperar os jogadores que não estão em seu melhor momento neste último mês antes da copa. Isto é uma visão da comissão técnica e deverá ser provada.

Acho que é possível, mas não é certo. Para jogadores “velhos” como Júlio Batista, por exemplo, que talvez tenha chegado à decadência natural do jogador que começa a sentir que o rendimento físico não é mais o mesmo.

Vão espernear até o fim

Claro que a imprensa carioca e paulista vai chorar até o final da Copa do Mundo o fato de Ganso, por exemplo, não estar na lista. Vimos este episódio em 2002 com o Felipão quase sendo linchado na sede da CBF pela não convocação de Romário. Porém há de se considerar que o menino da vila nunca foi convocado. Isto é um critério para ir para o Mundial, segundo Dunga.

Claro que o Ronaldinho não fará falta. Há muito, trata-se de um gênio que não consegue mais executar o que pensa, sequelado pelo “samba” em excesso. Ele não é mais o exuberante Ronaldinho que mereceu a convocação de 2002. Não rende e não consegue mais chegar aquele nível. Tanto para Ronaldinho quanto para Ganso, a suplência ficou de bom tamanho.

Não falo em 2006 porque ele já não fez a diferença nem na seleção nem no Barcelona em momentos cruciais. Por isso, o atual Ronaldinho do Milan não fará falta. Aquele do Grêmio, do PSG e dos primeiros anos de Barcelona, faz. Adriano não vai para a copa porque não quer, não se comprometeu. Foi atrapalhado pela vida que escolheu. E Victor foi vítima da falta de atuações com a camisa da seleção e, para mim, não está também no seu melhor momento.

Escola Felipão

Não comparo Dunga com Felipão, mesmo sendo farinhas do mesmo saco, terem a mesma escola de comando. Dunga, apesar do português catastrófico, como o de muitos outros brasileiros, expôs na coletiva à imprensa, de forma clara, o que motivou sua escolha e transmitiu segurança.

Fica pra mim, como jornalista, o desabafo de Jorginho (o sujeito mais elegante na equipe) em um tom que, acredito, dificilmente vimos e teremos a oportunidade de ver novamente: “essa é a seleção brasileira, é o nosso país é a nossa pátria”, esbravejou o assistente-técnico da seleção. Se fosse sem noção como Maradona ainda mandaria um “carajo” no final da frase.

Para mim, essa é a cara da seleção de Dunga. Uma seleção de sangue quente, competitiva, com o comprometimento de quem vai representar o país no exterior. Isso pode fazer a diferença. Profissionalismo com amor a camiseta. Tudo isso faltou em 1986, 1990 e 2006. Porém, é tudo o que Dunga sempre simbolizou.

Confira os escolhidos com imagens da SPORTV:

Michael, eles não ligam pra gente!

Lembro-me como se fosse hoje da badalação que a mídia brasileira fez na ocasião da gravação do clip They don´t care about us, de Michael Jackson, no Rio de Janeiro, no morro Dona Marta. Comunidade cuja história é contada no detalhe ao longo das linhas de Abusado, de Caco Barcellos.

Na ocasião, o diretor do clip, Spyke Lee, teria negociado com os traficantes que dominavam a área para que tudo corresse nos conformes. Apesar da euforia midiática, lembro-me muito bem do desconforto que tive com aquela situação toda.

Afinal é um bocado contundente a indústria Michael Jackson escolher o Brasil para gravar um clip sobre injustiça social. Não somente porque não é a temática que baseou sua carreira, mas é o primeiro lugar que veio à cabeça da produção para fazer a representação visual da música. É impossível um brasileiro ter orgulho disso.

Um contra-ataque

Na época, a reportagem extasiada com a presença do mega pop em uma favela arrastou seus textos e imagens para o inusitado espetáculo. Negligenciou o foco da crítica e o bizarro fato de Spyke Lee ignorar o poder público e buscar contato direto com o tráfico. Isso é contado em Abusado.

Nesta época de luto profundo pela morte de Michael Jackson around the world e de mais um momento lindo de Roberto Carlos no Brasil, conforme li pela Internet, eu tenho pouquíssimo a dizer. Não vou externar amargura gratuita nem vou contra a corrente.

Aliás, até respeito os homens em questão pelo apelo popular. Principalmente o Roberto, que nos anos 70 foi brilhante. Embora não participe da onda, contribuo em outra direção, eu diria. Brindo este blog, portanto, com um momento diferenciado de Sinéad O´Connor e Massive Attack naquele que é pra mim um dos melhores álbuns deste início de século no gênero que esses caras são realmente mestres absolutos – o Trip Hop. Disco 100th Window, Special Cases – 2003.

Special Cases

Don’t tell your man what he don’t do right
Nor tell him all the things that make you cry
But check yourself for your own shit
And don’t be making out like it’s all his

Take a look around the world
You see such bad things happening
There are many good men
Ask yourself is he one of them

The deadliest of sin is pride
Make you feel like you’re always right
But there are always two sides
It takes two to make love, two to make a life

Take a look around the world
You see such mad things happening
There are few good men
Thank your lucky star that he’s one of them

Mais Massive Attack. Dessa vez com Elizabeth Fraser. Teardrop do álbum Mezzanine, de 1998.

Teardrop

Love, love is a verb
Love is a doing word
Fearless on my breath
Gentle impulsion
Shakes me makes me lighter
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Nine night of matter
Black flowers blossom
Fearless on my breath
Black flowers blossom
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my……

Water is my eye
Most faithful mirror
Fearless on my breath
Teardrop on the fire of a confession
Fearless on my breath
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

You’re stumbling a little (x2)

Ele diz que a vida segue e eu digo, segue o desconforto.

É difícil ouvir um Grenal pela Internet, a milhares de quilômetros do estádio, e se concentrar para escrever qualquer texto decente. Neste momento, 25 minutos do segundo tempo, está tudo empatado. A decisão da primeira fase do Gauchão 2009 deve ser nos pênaltis.

Mas não pense que me importo muuuuuuuito com o título simbólico. É que não dá para ignorar a corneta após cada Grenal perdido. Fazer o quê? A gente cresce neste clima de rivalidade futebolística maluca no Rio Grande do Sul e acaba levando isso para o resto da vida, onde quer que esteja.

O resultado de um Grenal reverbera em todos os continentes, chegando naturalmente aqui no apartamento que vivo em Kessenich, Bonn. Propaga-se como meu grito de gol, que há pouco se uniu à minoria apaixonada no Beira-Rio.

Sim, senhoras e senhores, o meu grito reverberou pelo Ocidente. Talvez tenha chegado com algum delay por lá porque a narração chega bastante atrasada aqui também. Mas chegou! Espero que não tenha sido ouvido tão tarde ao ponto de engrossar o segundo grito de gol dos torcedores do adversário.

Jovens alemãs aproveitam o carnaval em Bonn

Jovens alemãs aproveitam o carnaval em Bonn

Segue o jogo e lembro do carnaval

O Brasil é a terra do samba, mas será mesmo a terra do carnaval? Não quero comprar briga com foliões patriotas, até porque não sou especialista no evento anual, porém, eu, um brasileiro, junto espanto e admirção quando vivo o carnaval alemão.

Não há como ficar indiferente diante dos desfiles comunitários, das fantasias engraçadas, dos doces jogados pelos carros alegóricos, do elevadíssimo teor alcóolico e da música altíssima em seus mais variados gêneros, inclusive nos estilos típicos. Nesta época, das regiões católicas alemãs pulsa uma euforia rara, que parece ser contida durante todo o ano. É quando uma gente com fama de ser um pouco mais séria em relação ao típico brasileiro sai do comportamento cotidiano, quebra o gelo do inverno e, no bom “brasileiro”, atola o pé na jaca, chuta o balde mesmo.

Talvez por ter nascido em uma região também carnavalesca, mas não tão empolgada, digo, com todas as letras, que nada me impressiona mais do que as fantasias indiferentes ao frio das menininhas, os adultos disputando doces aos cotovelos com crianças às vezes na primeira infância e a embriaguês das ruas daqui. Sim, as ruas ficam bêbadas na Renânia.

Quem não tem fantasia se sente estranho

Bares recebem público pouco comum

Café verde

É tanta cerveja esparramada nas calçadas que elas também perdem o controle, não conseguem segurar os foliões. A pista deslizante produz alguns tombos sem muita gravidade – pelo menos que eu tenha visto. Tem gente que escorrega, cai no chão, quica, levanta e segue borracho.

Por falar em Brasil e Alemanha, antes do carnaval, estive na Biofach – maior feira do mercado de alimentos orgânicos do Mundo em Nurembergue. Eu diria que é comovente o esforço brasileiro em tentar romper uma lógica comercial secular, aproveitando a “Onda Bio”.

Dessa vez, nossos produtores, muitos representantes de cooperativas, comunidades de agricultores familiares, vieram para a Alemanha não somente para oferecer matéria-prima, mas para encontrar parceiros a fim de que o produto já industrializado (marcas pequenas) vendam na União Européia.

O mineiro João Pereira quer vender café tostado para a Europa

O mineiro João Pereira quer vender café tostado para a Europa

Parece maluco, mas o café brasileiro vem verde para ser torrado, processado e rotulado na Europa. Só entra na União Européia se for assim. Já processadinho, empacotadinho do Brasil, não entra. Uma barreira sedimentada por protecionismo e tradição que os bravos tupiniquins querem romper.

O diretor do projeto Organics Brasil, Ming Chao Liu, disse que existe um grande protecionismo e legislações específicas para diferentes alimentos e isso dificulta tudo.

O movimento relacionado ao produto orgânico brasileiro teve comportamento animador nos últimos anos. Em 2006, foram exportados 6 milhões de dólares por 12 empresas brasileiras. No ano passado, o faturamento pulou para 58 milhões de dólares, com o número de exportadores subindo para 70.

Teodora Hinojosa Machacado em seu estande pequeno na Biofach

Teodora Hinojosa Machacado em seu estande pequeno na Biofach

Desconforto

Para Liu, a grande dificuldade do produtor brasileiro é conseguir a certificação. Dependendo do selo, o produto adquire credibilidade no mercado internacional, mas isso também não garante a sua comercialização. “As empresas brasileiras têm sido incentivadas a buscar certificados em seus mercados-alvo”, disse.

Eu ia terminar este texto comentando a história da boliviana Teodora Hinojosa Machacado, de 32 anos, que foi para a Biofach tentar vender o seu café orgânico industrializado. Simples, humilde, lidera o grupo de mulheres agricultoras da região de La Paz e Santa Cruz e veio a Alemanha para mostrar a cara no jogo do Mercado Bio internacional.

Tento seguir falando da aguerrida mulher boliviana, mas prefiro disponibilizar o link da matéria que fiz para a redação espanhola da Deutsche Welle após começar a ouvir a entrevista coletiva do técnico Celso Roth. (http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4048696,00.html)

Sim, tá faltando cor!

Sim, tá faltando cor!

Mesmo pela Internet, a palestra de Roth me arrepia. Não pela sapiência. Comentando mais um Grenal perdido, ele diz “o Tite que aproveite este momento porque as coisas mudam, né?”. Amigos, essa amargura não é tricolor. Não gosto de pegar frases isoladas para comentar, mas que espécie de “momento” é esse que não termina nunca?

Outra pérola, “parece que dá um branco em jogo contra o Internacional”, resignação que definitivamente não é gremista também. Aliás, o melhor da psicologia esportiva, pregar o derrotismo em cima do principal adversário na metade da competição. Tudo bem que o Internacional foi sim favorecido pela tabela, pelo Grenal em Erechim (deveria ter sido no Olímpico com somente 3 mil colorados), pelo calendário de jogos do Grêmio, mas não é necessário facilitar as coisas para o adversário. Ou querem presentear o co-irmão pelo centenário e não falaram nada?

Eu me lembro que o lateral-direito Luís Carlos Winck tinha alguns “brancos” frente ao nosso limitado Jorge Veras também. Era invariavelmente humilhado e, dizem, que o jogador colorado, antes de cada Grenal, era inclusive acometido por diarréias fortíssimas. O fato e o boato entraram para o folclore do Grenal porque Winck era um bom jogador e Veras, um homem de sorte. O que nós temos agora na dupla Grenal? Um bom técnico e um homem rico, talvez?

Valdo, Lima e Jorge Veras

Não sou de pedir queda de treinador, mas eu tenho certeza de que alguém que está na posição de técnico do Grêmio tem potencial para mostrar mais grandeza. Tanto técnica, quanto humana. Creio que Celso Roth merece ser comandante do Grêmio porque é trabalhador e reiteradamente é escolhido para o cargo. Porém, acredito que pode fazer mais. Roth gosta de dizer após cada resultado inesperado, “…e segue a vida”. Eu digo, Roth, com todo o respeito, segue o desconforto também.

Abaixo, vídeo da final do Gauchão de 1987. Estavam em campo Jorge Veras e Luís Carlos Winck. Foram três gols do Grêmio antes dos 20 minutos. O triste neste jogo foi que o zagueiro Pinga do Inter quebrou a perna no lance do primeiro gol (é possível vê-lo no chão nos primeiros frames, à direita do quadro, mas é muito rápido). Taffarel estava no gol colorado, outra vítima do Veras.

O ponteiro-esquerdo gremista compunha o ataque com Valdo (há pouco tempo, técnico do Rondonópolis, meu time do coração nesta semana) e Lima. O azar colorado nesta época entrou para a história do clássico centenário, assim como a voz do legendário Celestino Valenzuela. “Queeee laance!” e “Coooool” (Gooool), eram dois dos bordões do narrador.