“Se você quiser mudar estruturalmente uma sociedade, você terá de quebrá-la”, diz operador que roubou dados de milhões de pessoas no Facebook

Em meio à produção midiática global sobre a reeleição de Vladimir Putin na Rússia e à comoção brasileira com o chocante assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, o New York Times e o The Guardian publicaram uma entrevista que não pode ser ignorada nestes tempos de extrema e nociva polarização política.

Trata-se da história do cientista de dados Christopher Wylie, um dos principais responsáveis pela coleta ilegal de informações privadas de mais de 50 milhões de pessoas através do Facebook com o objetivo de influenciar as eleições de 2016 nos Estados Unidos. A operação de três meses foi montada pela empresa Cambridge Analytica através de um aplicativo projetado pela equipe do Dr. Aleksandr Kogan, do Departamento de Psicologia da Universidade de Cambridge.

O app consegue capturar dados das pessoas que o acessam e da rede de relacionamentos delas no Facebook sem que se deem conta disso. “A ideia era combinar microtargeting com construções psicológicas. O alvo não seria você como eleitor, mas você como personalidade. Para isso se precisava coletar massivamente dados das pessoas. Assim se construiria um perfil psicológico sobre cada eleitor nos Estados Unidos”, revelou Wylie em uma entrevista publicada em vídeo pelo The Guardian.

O plano tinha o objetivo de criar uma ferramenta que influenciasse uma mudança cultural na sociedade americana e, segundo Wylie, teve a participação de Steve Bannon, editor da rede de notícias de direita Breitbart. Bannon conquistou a simpatia do mecenas republicano Robert Mercer, um multibilionário gestor de fundos de investimento e cientista da computação, doador nas campanhas de Donald Trump à Presidência dos EUA e de Nigel Farage para o Brexit. Segundo Wylie, Mercer aceitou investir 15 milhões de dólares no que seria a “arma cultural” de Bannon.

A Cambridge Analytica também trabalhou na campanha para o Brexit. A empresa montou uma estrutura que contava com cientistas de dados, psicólogos, criadores publicitários, designers, videomakers e fotógrafos. A equipe produziu conteúdo levando em consideração que tipo de mensagem fazia a pessoa suscetível, o enquadramento, o tópico, o conteúdo e o tom que esse conteúdo seria transmitido.

“Levávamos em conta quantas vezes teríamos que tocar você com a mensagem para fazer você mudar o que pensa sobre algo”, esclarece. A equipe criava a peça que era introduzida na Web por um time de especialistas em público-alvo. “Websites, blogs… o que imaginássemos que um determinado perfil de pessoa seria mais receptivo seria criado na internet para ser encontrado por ela. Assim que a pessoa clicasse nisso, ela seguiria um caminho de conteúdos semelhantes por si só até mudar de opinião.”

Cambridge Analytica no Brasil

No último final de semana, a Fundação Getúlio Vargas divulgou através do Jornal O Globo um levantamento sobre tuítes relacionados ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, revelando que o debate foi distorcido pela presença de 1.833 robôs de quarta a sexta-feira (16/03), 5% do total da discussão. É claro que a publicação desses dados no contexto polarizado brasileiro acabou fazendo com que cada polo empurrasse a responsabilidade da ação dos robôs para o adversário, mas quem está por trás deste tipo de iniciativa ainda está oculto para os usuários da rede. O certo é que se trata de um método de influência e, como tal, não pertence a uma corrente política específica. Robôs ou meios mais sofisticados podem ser usados para qualquer linha ideológica.

A Cambridge Analytica atua no Brasil há um ano através de parceria com a empresa Ponte Estratégia. A Folha de São Paulo divulgou no final de semana que a parceria deverá ser desfeita depois do escândalo na Europa e nos Estados Unidos.

O caso divulgado por Wylie evidencia que pelo menos um grupo de técnicos de psicologia, publicidade e tecnologia da informação está convencido de que é possível fazer as pessoas mudarem de opinião política sem um debate público construtivo nem compartilhamento de experiências coletivas. “Corremos o risco de fragmentar a sociedade de modo que as pessoas não compartilhem mais experiências nem entendimentos. Se não tivermos mais entendimentos compartilhados, como teremos uma sociedade que funcione?”, questiona. Wylie considera que fez um “experimento antiético grosseiro, que brinca com a psicologia de toda uma nação sem o consentimento ou a consciência dela no contexto de um processo democrático”.

Ele disse ao jornal britânico que o Facebook solicitou em 2016 que a Cambridge Analytica excluísse dados privados roubados de seus usuários em 2014. A empresa ignorou o pedido e o que mais impressionou Wylie foi que o Facebook nunca conferiu se a Cambridge Analytica havia excluído os dados ou não. Apesar de saber que a empresa roubou dados privados de seus usuários, o Facebook suspendeu a conta da Cambridge Analytica somente na última sexta-feira, quatro dias após a reportagem do The Guardian solicitar a resposta do Facebook sobre o caso.

Na entrevista que circula em vídeo pela rede, chama a atenção uma declaração de Wylie sobre a filosofia por trás da iniciativa da Cambridge Analytica: “Se você quiser mudar estruturalmente uma sociedade, você terá de quebrá-la. Só quando você conseguir quebrá-la, você conseguirá juntar os pedaços de acordo com a sua visão de uma nova sociedade. (…) Essa foi a arma que Steve Bannon quis construir para a sua guerra cultural”.

Sobre a entrevista de Wylie, o professor Kogan disse ao The Guardian que tudo o que fez é legal e que tem um relacionamento próximo com o Facebook que, por sua vez, teria autorizado o uso de seu app. O Facebook disse ao jornal britânico que proteger a informação das pessoas é o cerne do que a empresa faz: “nós exigimos o mesmo das pessoas que operam apps no Facebook.”

A “intervenção” com a toalha verde-oliva

Uso do Exército não é suficiente. É preciso política pública de segurança com início, meio e fim, mecanismos de avaliação e abordagens multidisciplinares para resolver o problema a longo prazo. O que se propõe agora aparentemente é enxugar gelo com uma toalha verde-oliva, e isso não é sustentável.
É possível que sejam verificados alguns avanços, que ao longo do período surja a junção de medidas mais amplas e estruturais, mesmo assim estará ocorrendo no atropelo, sem um projeto consistente desde o início da implantação, o que gera chances de erros. Não é assim que se lida seriamente com uma questão tão complexa e sensível.


Aparentemente temos uma medida que parece eleitoreira, é paliativa, é cara, pouco transparente quanto a seus reais motivos – não sabemos qual foi realmente a gota d’água para a medida drástica ser adotada apressadamente, da noite para o dia – e é incompleta a médio e longo prazo porque não articula nem mobiliza outros setores do Estado nem da sociedade.


Acho que é possível, como efeito, termos um leve esfriamento do crime em algumas áreas, redução das mortes de policiais, alguma mobilização social importante, mas tudo isso de forma inconsistente a médio e longo prazo. Poderá até conter, mas não soluciona nada.


Como efeito colateral – caso não se adote complementos para uma política pública – é possível que a medida gere frustração social pela permanência do crime e a própria desmoralização da tropa pelo uso do recurso sem o suporte que uma política pública daria.


É claro que há circunstâncias políticas e sociais que vão ser decisivas para dar mais fôlego ou tornar a medida uma bola de neve para que o problema fique ainda mais complexo como a politização da questão – natural pela polarização degradante do país – a mudança dos governos, e um eventual desgaste midiático e internacional pelos efeitos nocivos naturais produzidos ao se colocar tropas do Exército para fazer trabalho de polícia.


Eu pessoalmente preferia uma política pública de segurança bem pensada com o envolvimento de outros setores para que se invista recursos públicos de forma mais séria e coerente com o esforço do cidadão que vai bancar mais essa. Sinto dizer, mas estamos muito próximos de uma medida paliativa que está gerando grande expectativa e, por isso, tem grande chance de produzir frustração e desgaste a médio e longo prazo.

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Como desmontar a Brasil S/A?

A lista de Fachin e a publicação dos depoimentos da Odebrecht são ações de uma dimensão tão extraordinária que podem ajustar o debate político no Brasil, impulsionando questões que estavam invisíveis à população histérica nas arquibancadas do jogo de cena de figurões políticos.

Ela ameniza a polarização de “mocinhos” e “bandidos”, e nos aproxima de discussões cruciais sobre o poder. A lista e a publicação dos depoimentos deixam claro que ideologias foram relegadas a segundo plano e que alguns de nossos mais persuasivos representantes são freelancers de vários patrões e de vez em quando batem cartão para serem pagos também pelos impostos dos cidadãos. Em meio a um massacre moral, exausta, a população ainda precisa encontrar energia para vigiar as reformas preocupantes e afoitas de Michel Temer e dimensionar os heróis súbitos da Lava Jato.

Por exemplo, a tese do procurador Deltran Dallagnol e seus colegas sobre a chamada “propinocracia”, se não é viciada, é agora nitidamente equivocada. A lista deixa claro que o centro do gráfico do PowerPoint é na verdade um dos vértices de um polígono multipartidário bem remunerado por nós e por megaempresas. Há vários figurões empregados na Brasil S/A – uma máquina invisível que semiprivatiza o Estado e tem como sócios majoritários não somente os Odebrecht, mas outros magnatas brasileiros e estrangeiros. Portanto, buscar centralizar o desgaste político em um personagem me parece equivocado porque a questão é evidentemente sistêmica.

A publicação da lista e das delações lançam luz sobre episódios obscuros na história recente. Por exemplo, Emílio confessa que a polêmica quebra do monopólio das telecomunicações nos anos 1990 foi desenhada por executivos contratados pela Odebrecht, Globo e outras empresas para “auxiliar o governo”. Talvez por esta influência excessiva do mercado, alguns estados condicionaram privatizações à consulta popular. Ou seja, agora parece nítido para muitos que dar poder decisório à população significa reduzir o poder plutocrata e a previsão legal disto é uma iniciativa razoável para equilibrar forças.

Assim como os procuradores federais, Sérgio Moro deveria estar longe de ser crucificado ou endeusado. No entanto, a lista de Fachin e as delações da Odebrecht revelam tendência política constrangedora nas iniciativas do magistrado. Afinal, não se espera que alguém na sua função exponha e busque a apuração dedicada de operações de apenas um grupo de freelancers, mas de todos os freelancers da Brasil S/A. Mesmo com questões sensíveis em aberto, a Lava Jato tem méritos. A população tem a chance de discutir ética na política se debruçando sobre problemas concretos e cobrar soluções.

A lista e a publicação das delações são tão contundentes que acentuam a onda de ceticismo que tende a colocar políticos no mesmo saco. Por outro lado, a classe política tem de se dar conta que é responsável pelo seu destino. O mínimo que poderia fazer é sugerir uma reforma política e institucional conectada à sociedade, que não se resuma a novas regras de financiamento de campanha. Tal reforma deve se basear no interesse de depuração dos partidos, mas fundamentalmente na instalação de normas e práticas modernas que acabem com a Brasil S/A e deem mais peso decisório à população. Presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares devem ter o poder proporcional ao risco brutal que oferecem e ao seu potencial de falência.

Vemos diversos mecanismos de participação e transparência pelo mundo que podem ser inspiradores. Candidaturas independentes ou avulsas e prévias amplas para escolha de candidatos podem ajudar a reduzir o poder de caciques. Petições e consultas públicas poderiam ter maior peso na aprovação e anulação de projetos de grande impacto econômico, social e ambiental. Existem normas de descentralização do poder local em diversos países que podem ser vistas com mais atenção.

A tecnologia já nos oferece caminhos para a criação de plataformas de debate, fiscalização e decisão coletiva adequadas a nossa realidade. Há modelos baseados em experiências brasileiras que dão certo pelo mundo, adaptados a culturas locais. O Orçamento Participativo, por exemplo, é um modelo importante que se modernizou e fortaleceu em outros países, mas se enfraqueceu no Brasil. Por que? O exercício da cidadania teve retrocessos em algumas regiões. Em outras, ainda está baseado em votar e ser votado.

A leitura do poder

A publicação das delações não revela uma mecânica nova. Corporações despendem bilhões em propinas e favores em nível local, nacional e internacional. O “chefe” fala como “gerenciava a expectativa” de seus freelancers parlamentares e, por vezes, revela irritação com a ganância e ineficiência deles. Ou seja, se nós nos indignamos com a inoperância política, os empreiteiros também se indignam com a péssima prestação do “serviço pago”.

Steven Lukes, na sua obra Power: a radical view, avalia que poderosos não somente influenciam tomadas de decisão, mas também definem a pauta dos subalternizados sem que estes últimos se deem conta disto. No Brasil, há pouco tempo, as redes sociais estavam sintonizadas em subtemas político-partidários enquanto o poder de fato controlava o país e permanecia escondido, sem ser discutido.

A população debatia (ou debate) apaixonadamente quem estava menos sujo numa sinergia de raiva que aflorava o egoísmo puro que fomenta nossa violência diária. Adeptos de fórmulas mágicas e mutes espirituais, cidadãos apaixonados reduziam discussões complexas e cruciais, e até cogitavam abrir mão de direitos civis e políticos em favor do retorno da ditadura. Finalmente, os últimos episódios da crise política podem nos dar a chance de colocar os pés no chão se tudo for conduzido como deve ser.

A reforma política e institucional passa por desmontar a Brasil S/A e equacionar a questão “democracia representativa” no Brasil. Ou seja, como transformar os nossos agentes públicos e políticos em secretários que conduzam demandas da sociedade à máquina estatal? Como fazer com que esta máquina intermedeie interesses de forma equilibrada e devolva um produto de qualidade? Esta é a discussão que precisa ser feita em todos os espaços públicos.

Mesmo cansada, a população precisa participar diretamente dessa reforma. Do contrário, estará sempre vulnerável ao poder corruptor do mercado – que não tem como ser controlado, mas pode ter seus impactos reduzidos.

Caros petistas, sejam bem-vindos de volta á luta

Primeiro lugar, gostaria de dar as boas-vindas aos amigos e militantes petistas que saíram nesta semana do Estado para voltar à sociedade civil de verdade, aquela que desacata. Um espaço que estava amansado por uma índole pelega que – como já era de se esperar – tomou conta do país nos anos 2000. Em qualquer parte do mundo, esta é a regra do jogo. Quando boa parte dos ativistas vão para a estrutura do Estado, eles e suas organizações são, em consequência, engolidos por este Estado. Isto apaga a chama das lutas por questões que realmente fazem sentido.

A vida é assim.

A expectativa agora é que vocês reativem este espaço que precisa ficar pulsante nas ruas, nos bairros, nas associações de classe – nos espaços conquistados e convidados (parlamentos, conselhos, etc….). Para quem está cansado do poder exclusivamente político-partidário e enxerga a participação direta do povo em questões que realmente interessam, o retorno de vocês é um alento. Sejam bem-vindos.

Endosso os clamores que exigem que a democracia siga um caminho que renda frutos para a nação, não somente para a elite. Condeno a resposta agressiva da polícia, que a cada ação desproporcional destrói a vida de várias pessoas. Jovens que têm muito para contribuir para o país, que os agentes públicos de segurança deveriam defender, mas acabam aleijando. É deplorável a incompetência gritante do Estado no setor da segurança em todas as dimensões.

Gostaria de estar ao lado dos militantes nas ruas se me identificasse com suas bandeiras desbotadas político-partidárias, mas não consigo. Desculpem, eu abraçaria o discurso de novas eleições, um revival do “Diretas Já!”. Aliás, isto faria muito sentido neste momento.

Para mim, os que acham que houve golpe e os que acham que não houve golpe não merecem Michel Temer nem como representante de turma numa escola primária, quanto mais em um mandato tampão num momento tão conturbado. Digo isto ao observar tudo o que está por trás de Temer e de seus amigos que capturaram o governo em uma manobra que não teve nada de genial. Foi uma ação articulada que encontrou espaço na inépcia política da presidente e de companheiros que criaram raízes no poder e se desgastaram, fazendo alianças até com aquele que “cheira a enxofre”. Aliás, Temer abriu a porta dos fundos desta casa para um grupo cansado, indiciado e obscuro. Todos estão vendo isto.

Por outro lado, os viúvos da presidenta deposta tentam capturar uma luta que deveria ser de todos os brasileiros. Mas por que não é?

Vejamos, eles não estragam a luta porque, afinal de contas, alguém tem de começar. No entanto, eles a ideologizam com um discurso que não convence a todos. É bom ir para rua, mas é melhor ir para a rua lutar por algo que faça sentido para todos. E vocês têm tudo isto caindo de maduro na frente de vocês. A democracia faz sentido, eleições diretas fazem sentido, mas a anulação de um processo legal não faz sentido.

Vejo imagens da ocupação dos espaços públicos pela retórica do golpe, que não convence a todos e é político-partidária. Não houve golpe de Estado, mas a radicalização do estado de direito. Isto acontece de vez em quando no Brasil… muito mais em nível local, eu diria, quando se tenta incriminar os menos poderosos “radicalizando provas”. Em nível político, quando é conveniente para alguns poucos, como aconteceu com Collor, por exemplo. Não digo que isto é bom, mas o sistema permite isto. E em 13 anos, ninguém conseguiu mudar o sistema. Por quê?

Aliás, um Estado radicalizado exacerba o seu poder, torna-se inconveniente ao desenvolvimento político pelas suas arbitrariedades e ao desenvolvimento econômico por conceder privilégios a quem é do time ou beneficia o time. O mínimo que eu espero é que o tal “crime de responsabilidade” que valeu o impeachment da presidenta sirva de exemplo e inspiração para a limpeza necessária e atrasada. Agilizar o julgamento dos parlamentares indiciados e dos governadores que cometeram e cometem crimes de responsabilidade, por exemplo, passa a ser o caminho natural das coisas. Qualquer ação que não seja esta nos retoma ao pesadelo da terra da impunidade e da politicagem.

Creio que a atual mobilização e ação coletiva do Judiciário, da PF e de setores da sociedade civil está tendo algum sentido, mas tem de continuar. Do contrário, a ofensiva contra a presidenta será vista historicamente como politicagem barata.

Para mim, a missão da década de 2010 é despolarizar o Brasil. E a figura indigesta de Temer e seus convidados, convenhamos, não vai conseguir fazer isto. Unir vozes por democracia, eleições diretas e limpeza da estrutura do Estado é dever de todos. Está na hora dos cidadãos de qualquer cor partidária, que se identifiquem ou não com Dilma, participarem e ocuparem os espaços públicos unindo vozes. A maioria da população quer algo novo, mas quer algo novo de verdade.

Com todo o respeito a Paulo Paim, Raul Pont e Olívio Dutra – ativistas e políticos de boas ideias e respeitáveis – não creio que seja a hora de discursos populistas político-partidários. O momento é para ação nas ruas, mas com uma retórica lógica. Do contrário, não haverá mudança. Temer tem, sim, medo do povo. Mas não vai se abalar facilmente. Ele está bem calçado.

A elite brasileira está apoiada por quem manda no mundo, tem sangue de barata  e está fortemente armada contra o povo nas ruas. Aliás, sempre esteve.

A vontade de Goodluck Jonathan

O australiano Stephen Davis ganhou notoriedade por tentar iniciar um diálogo com o Boko Haram a fim de resgatar as quase 300 jovens sequestradas pelo grupo radical em abril.

Desde o início de agosto, conforme escreve Patrick Begley, do The Sidney Morning Herald, agentes do contra-terrorismo australiano tentam saber como este relacionamento com os extremistas nigerianos começou.

Davis trabalhou como consultor da Shell na tentativa da multinacional negociar a paz com os guerrilheiros do Delta do Níger nos anos 2000. Acabou sendo consultor do próprio governo nigeriano para o acordo de paz.

Em uma entrevista a um canal de televisão nigeriano, Davis defendeu que o ex-governador da província de Borno, Ali Modu Sheriff, e o ex-chefe das forças armadas nigerianas, Azubuike Ihejirike, fossem neutralizados porque estariam patrocinando os radicais.

Sheriff negou as acusações em entrevista à DW África.

Falso porto seguro

 Há poucos dias, Boko Haram controlou Gwoza, no Estado de Borno, no Nordeste do país, e declarou um califado. A cidade não era somente composta por muçulmanos. Há relatos de execuções sumárias durante a tomada da cidade – conforme escreve Daniel Agbiboa, consultor da União Africana em seu blog na Al Jazeera.

Sob o ponto de vista étnico e linguístico, é mais lógico que as pessoas que conseguiram fugir de Gwoza engrossem os acampamentos de fugitivos do Boko Haram nos Camarões. Conforme a ONU, 650 mil pessoas deixaram suas casas nas províncias estados de Borno, Yobe e Adamawa.

Na sequência da declaração do califado, veio a fuga de quase 500 soldados nigerianos, que transpuseram a fronteira devido ao avanço dos radicais.

O território camaronês, no entanto, não pode ser considerado nenhum “porto seguro” para os refugiados. O grupo armado tem investido frequentemente nos Camarões para sequestros e pilhagens. Os principais alvos são líderes locais, estrangeiros e clérigos.

Inclusive uma das ações mais audaciosas, depois do sequestro das quase 300 jovens em abril, ocorreu no final de julho. Integrantes da seita raptaram a esposa do vice-primeiro-ministro, Ahmadou Ali, em Kolofata, a 45 quilômetros de Gwoza dentro dos Camarões.

Califado e consequências

Os ataques a postos de segurança e vilarejos camaroneses na fronteira não significam uma dor de cabeça somente para Yaoundé, mas também para o Chade. Gwoza fica a apenas 330 quilômetros de N´djamena, a capital chadeana.

A declaração de califado em Gwoza não passa de uma forma de Abubakar Shekau mobilizar seus homens e apoiadores. Do ponto de vista militar, pode ter algum impacto. Politicamente, no entanto, tal iniciativa não foi apoiada pelos outros muçulmanos nigerianos e acaba representando muito pouco.

Parece mais uma frágil tentativa de copiar a estratégia “psico-terrorista” do Estado Islâmico (EI) do que uma ação consequente. Seria o interesse te ter mais espaço na mídia. O EI também declarou califado em uma atitude sem muito efeito a não ser de mobilização dos próprios grupos radicais que o compõem.

No entanto, creio que a tomada de Gwoza, bem guarnecida e estruturada, pode significar um ponto de concentração de poder militar importante e tornar-se estratégica. Em outras palavras,  seria uma ameaça séria às comunidades do norte da Nigéria, à segurança da fronteira dos Camarões e do próprio Chade devido à proximidade com N´djamena.

Bando armado

Boko Haram não é um grupo homogêneo e seus interesses são bastante difusos atualmente. Muitos dos seus guerreiros são mercenários, oriundos do vizinho Níger que engajaram na esperança de alguns dólares.

De janeiro a agosto de 2014, foram mais de 2,200 mortes em quase 100 ações. O jornalista alemão Marc Engelhardt, em seu livro “Guerra Santa, Santo Lucro”, escreve que a partir de Agosto de 2011, após o ataque à sede das Nações Unidas em Lagos – quando 25 foram mortos e 85 feridos – o Boko Haram começou a diversificar as suas táticas de combate.

Obrigou o deslocamento de dezenas de milhares de cristãos do Norte, majoritariamente ocupado por muçulmanos, para o Sul. Conforme ONGs da região de Borno, a etnia Igbo tem sido especialmente massacrada e não acredita mais na polícia ou no exército, refugiando-se em outras áreas do país.

Vale lembrar que os Igbo foram protagonistas da sangrenta Guerra do Biafra, que opôs a província ao governo central no final da década de 1960.

Difícil solução

A declaração de Davis beira o absurdo porque o ex-governador Ali Modu Sheriff é um dos fundadores do movimento, aproveitou-se dele na política, mas, mais tarde, juntou-se ás forças armadas para sabotar a seita .

Heirich Bergstresser, por exemplo – um jornalista alemão especialista em temas nigerianos – acredita que, para Sheriff, negociar ou até mesmo patrocinar o grupo diante destes relacionamentos conflitantes seria “correr em uma aventura”.

Já o General Ihejirika não tem qualquer familiaridade com o Norte do país. No entanto, teria contribuído para a mercantilização do exército nigeriano que, por incrível que pareça, impediria que a “guerra contra o terror” seja bem-sucedida.

Afinal a prontidão contra o Boko Haram significa importante afluxo de recursos para as forças armadas, concentração de atenção e poder.

Recursos do Boko Haram

Há muito tempo o Boko Haram não é somente uma seita. Também tem características de bando armado fora da lei, sem ideologia ou fé.

Roubos, pilhagens e sequestros: é assim que o Boko Haram consegue recursos para a sua campanha de violência. Logo, a neutralização de Sheriff ou Ihejirike – mesmo se a tese de Davis for comprovada – não seria suficiente para acabar com o Boko Haram.

Bergstresser acha que ambos trabalham em um nível completamente diferente e que os principais apoiadores políticos do Boko Haram seriam os ex-governadores de províncias do norte da Nigéria depois de Sheriff.

“Estas pessoas deveriam ser chamadas para prestar contas. Colaboram para sedimentar o Boko Haram na estrutura política local”, defendeu Bergstresser em entrevista à DW África.

Um outro fator que fortalece o Boko Haram é a corrupção do sistema de segurança do país. Muitos setores da sociedade civil nigeriana acreditam que o aparelho de segurança do Estado lucre com contratos de segurança e venda de armas.

Conforme Bergstresser, tais negócios estariam sendo “colocados nos ombros de simples soldados e de civis e este seria o escândalo na Nigéria atualmente.”

Entretanto, não há nada concreto para provar um eventual “corpo mole” das forças de segurança em relação ao combate ao Boko Haram. Tais declarações podem ser até levianas diante dos massacres do grupo armado. Talvez o mais apropriado seria pensar na falta de capacidade geral do Estado em controlar a situação.

Próximas ações

No encontro entre líderes africanos e norte-americanos, chamou atenção o quanto o presidente Goodluck Jonathan foi evasivo ao falar sobre as meninas desaparecidas. Ficou claro que a crise provocada pelo Boko Haram será minimizada devido às eleições.

O tema não está no topo das prioridades no momento. A ideia é projetar a Nigéria como potência econômica emergente e atrair investidores.

No entanto, sem estabilidade interna dificilmente um país consegue atrair investidores como poderia.

Neste contexto, conforme Agbiboa, cresce o medo de que vigilantes juvenis, que se agrupam para proteger suas cidades do Boko Haram, acabem se tornando milicianos. Na província de Borno, os integrantes destes grupos já recebem dinheiro e no país são chamados de heróis por Goodluck Jonathan.